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Ushuaia no Inverno
Após realizar algumas viagens pela América do Sul (Atacama, Estrada Intereoceânica, Nordeste e Sertão brasileiro, Uruguai, etc...) me bateu a curiosidade de como seria percorrer a região da Patagônia em pleno inverno chegando até a cidade de Ushuaia.
Ir a Ushuaia de moto já não é mais nenhuma grande novidade, justamente por isso decidi que gostaria de fazer uma viagem diferente, iria enfrentar aquela inóspita região com seus ventos cortantes e retas intermináveis sob o congelante frio do inverno!
Durante alguns meses fiz várias pesquisas sobre viagem de motocicletas em regiões sob baixas temperaturas, de como seria pilotar sob o asfalto escorregadio ou sob a neve, quais equipamentos devirá utilizar, como deveria me preparar.... Obtive pouquíssimas ou quase nenhuma informação. Pesquisei também sobre como é a região da Patagônia argentina e chilena no inverno, qual seria a época mais fria, temperaturas, climogramas, etc.
Informações (poucas, mas julguei que seria o suficiente!) em mãos e tratei logo de computar meus custos. Com o orçamento apertado, tive a idéia de criar uma camiseta onde estaria estampado um mapa sobre a viagem. Fui atrás de empresas que pudessem me ajudar, estas me ajudaram com a confecção das camisetas que logo sai vendendo pela cidade, dessa forma, pude levantar fundos pra que eu pudesse preparar a moto e adquirir alguns equipamentos para enfrentar o frio.
Como já possuía mapas detalhados desses países, não tive grandes dificuldades para elaborar o roteiro, ao todo foram três meses de preparação.
Para a moto: protetores de motor, protetores de guidão, alforjes, tanque de combustível extra. Para o frio: roupas tipo segunda pele, jaqueta e calça de cordura, botas impermeáveis, barraca, saco de dormir, ferramentas, peças de reposição, mapas, um fogareiro e sobre isso tudo um par de pneus tipo cross para enfrentar o barro e o gelo. Julguei que tais equipamentos fossem o suficiente, porém, sem ter certeza, afinal não encontrei notícias de como seria pilotar uma moto sobre o asfalto coberto por gelo, muito menos sob temperaturas abaixo dos dez graus negativos! (Isso mesmo, -10ºC!!!).
E chegou então o grande dia, saí de Bauru no interior de São Paulo e segui em direção a fronteira com a Argentina passando por Foz do Iguaçu-PR. Segui então em direção ao sul, passando ao lado de Buenos Aires, optei por ficar na cidade de Azul, onde tive a oportunidade de conhecer a famosa "La Posta Del Viajero em Moto", uma espécie de "Toca do viajante em motocicleta, local internacionalmente conhecido e administrado pelo simpático Jorge "El Pollo", nesse ponto já passei a enfrentar temperaturas em torno de cinco graus.
Encontro então a famosa Ruta 3, estrada pela qual planejei ir até o seu ponto final, terminando em Ushuaia, A partir de agora, retas intermináveis estarão em meu caminho, sempre acompanhado de fortes rajadas de vento e um monotonia quase mortal!
Após um pernoite na cidade de Trelew, continuo seguindo ao sul. Duzentos quilômetros e cinqüenta quilômetros depois começo a sentir os efeitos do asfalto congelado e em meio a um grande deserto branco acabo levando meu primeiro tombo a quase cem quilômetros por hora! Felizmente, sem problemas consigo levantar a moto e colocá-la na pista novamente. Ao tentar acelerar, outro tombo. A opção de desistir então me passa pela cabeça, ainda me faltam dois mil quilômetros pela frente até Ushuaia, e quase não consigo mais movimentar meus dedos devido ao frio e pilotar sobre o gelo está se tornando um desafio quase sobrenatural! Decido então voltar a Trelew, descansar e pensar no que fazer no dia seguinte, no meio do caminho, mais um tombaço, e dos fortes!!! Chego de volta a pequena cidade e trato de encontrar um local simples pra passar a noite, logo encontro a Hospedaje San Pedro, uma pequena pensão muito aconchegante, sem forças pra trocar de roupa ou tomar banho, me deito e só abro os olhos no dia seguinte...
Pra minha surpresa o dia amanhece com o céu limpo e a temperatura mais agradável, decido então a continuar a minha jornada pela "Patagônia Congelada". Sigo ao sul, passo por Comodoro Rivadavia e decido esticar até Caleta Oliva, onde por acaso faço grandes amigos, logo estou instalado em uma casa aconchegante com aquecedor e direito a fazer entregas de pizza durante a noite, conheço os "MOTORATONES".
Pé na estrada, me acostumo ao frio e a nova forma de pilotar. Estou sempre atento aos cristais de gelo que se formam sobre o asfalto, por lá chamados de "escarcha". Nevascas se tornam constantes, enfrentá-las nem pensar, melhor procurar abrigo.
Em Rio Gallegos, prevendo enfrentar estradas de terra congeladas mais a frente, equipo a XT´zona com pneus tipo biscoito e faço a troca de óleo. Andando pelas ruas procurando um barato lugar pra ficar faço novos amigos, como é bom viajar!
Pela manhã chego a fronteira com o Chile e sigo em direção ao Estreito de Magalhães onde faço a travessia por meio de uma balsa. Ao adentrar nessa, todos ficam surpresos ao me verem com uma motocicleta em pleno inverno e me deixam viajar de graça, que beleza! Ao chegar na Grande Ilha da Terra do Fogo, acelero forte na idéia de abastecer em um pequeno povoado, que pra minha tristeza, não aceita moeda argentina. Agora terei de percorrer cento e vinte quilômetros em estrada de terra, que nessa época do ano se mistura ao gelo e se torna praticamente uma Transamazônica Congelada. Pra minha infelicidade, acaba o combustível a menos de dez quilômetros da fronteira, tento empurrar a moto, missão impossível em meio a tanto barro! Consigo então um carona, mas tenho de deixar minha moto e minhas coisas na beira da estrada. Consigo um pouco de combustível na Aduana e um carona para voltar a moto, pé na estrada! No final da tarde cruzo a fronteira e estou em território argentino novamente. Chego então a cidade de Rio Grande onde estava sendo aguardado por um amigo participante do Clube XT600 que vive por lá. Durante um bate-papo, fico sabendo que os carros utilizam nessa época do ano, pequenos pinos de aço cravados nos pneus para dar mais aderência sob o asfalto "escarchado".
Pela manhã, sigo em direção a Ushuaia, faltam apenas 120 km. Parece pouco, porém todo esse trajeto é rodeado de grandes penhascos e enormes montanhas tornando a paisagem fantástica, não fosse a pista também estar em toda sua extensão coberta por uma grossa camada de gelo, os pneus biscoita fazem uma enorme diferença, mas mesmo assim a moto está sempre escorregando pra todo lado!!! As estações de esqui estão lotadas de turistas de todos os lugares do mundo, e eu feliz da vida por conseguir a Ushuaia sobre uma motocicleta em pleno inverno!
Aproveito e tiro quatro dias pra comemorar meu feito histórico (pelo menos pra mim foi!!!), me hospedo em um albergue de viajantes onde fiz alegres amizades: gente da Suíça, Estados Unidos, Brasil, etc...). Também aproveitei pra sentir como seria pilotar uma moto sem bagagem sobre a neve, e também caminhar um pouco dando descanso a minha companheira.
No dia da minha partida de Ushuaia, aproveito pra dar uma geral na moto: limpar, esticar e lubrificar a corrente, limpeza do filtro de ar, reaperto de parafusos, etc. Aproveito e passo em uma borracharia e faço a colocação dos pinos de aço nos pneus tipo biscoito, creio que fará muita diferença na estrada coberta por gelo.
Paro o retorno, tenho a idéia de retorna por um caminho diferente. Quero saber como é a mítica Ruta 40 em pleno inverno. Passo pela cidade de Punta Arenas e no dia seguinte chego a Puerto Mont, lá tive a oportunidade de conhecer dois casais de brasileiros que estavam viajando em um Renault Clio e um Corsa Sedam, logo nos juntamos de fomo conhecer o Parque Nacional Torres Del Peine e seguimos para a cidade de El Calafate, novamente em território Argentino, onde pudemos conhecer o Glaciar Perito Moreno. Decidimos então montar um time e enfrentarmos juntos a Ruta 40 em pleno inverno, contrariando as recomendações da população e da polícia local, visto que este caminho fica totalmente isolado nessa época do ano. Ao todo foram 1400 km de rípio misturado com neve e muito barro. Em algumas situações tivemos de pilotar durante a noite sob forte nevasca, chuva e vento e nenhum tipo de orientação. Durante determinado trecho minha corrente escapou e acabou torcendo em meio ao pinhão, imaginem o que é fazer a desmontagem de toda a suspensão traseira de uma XT660R (a corrente é sem emenda), substituir uma relação completa sob uma temperatura de aproximadamente 0ºC. Moto pronta, é na estrada! Chegamos já a noite na cidade de Esquel e logo tratamos de achar um hotel com algum conforte depois de um dia hiper difícil. Depois de uma rápida janta, aproveito para trocar o pneu dianteiro, trocar o filtro de ar e fazer uma rápida inspeção na motocicleta (tudo isso por volta da 1h da madruga na garagem do hotel) e logo constato que um dos rolamentos da roda traseira está danificada e não poderei partir no dia seguinte(pois é um domingo) com meus novos amigos, fico então mais um dia na simpática cidade de Esquel e elejo este dia como o dia de "não fazer nada", ou melhor, o "dia da preguiça"!
Na segunda feira, trato de desmontar a roda traseira, comprar os rolamentos e colocar a moto na estrada. A temperatura já está mais agradável, sigo até a cidade de Bariloche onde me hospedo em um albergue lotado de jovens viajantes aventureiros.
Pela manhã, arrumo minhas coisas e pego novamente a Ruta 40 ziguezagueando a Cordilheira dos Andes, nessa região enfrente muito frio. A viseira do capacete congela, tento pilotar com ela aberta, meu rosto congela, meus olhos congelam, perco a visão, minhas mãos estão congeladas, sinto formigamento e logo trato da parar moto e aproximar meu rosto e minhas mãos próximas ao motor, espero o sol aparecer e minha situação física voltar ao normal. Nesse dia rode por 950 km, grande parte desse trecho durante a noite por um grande deserto onde pude observar mágicas estrelas cadentes, que lugar fantástico! Chego a cidade de Santa Rosa onde acabo reencontrando meus amigos brasileiros e me hospedo em uma pequena pensão.
No dia seguinte, pela manhã trato de buscar uma oficina e trocar o óleo. Para se ter uma idéia do frio, o óleo dentro dos frascos se tornam uma espécie de gelatina, então para que o mesmo saia do frasco é necessário colocar os frascos em "banho Maria"aquecendo-os para poderem afinar e aí sim colocar no motor. Feito isso, me mando em direção ao Uruguai, cruzo todo esse pequeno país e logo estou na divisa com o Brasil, durmo na cidade de Santana do Livramento. Como é bom estar em casa! Comer um bom churrasco, farta salada e tudo muito barato! Aproveito para conhecer um pouco essa cidade que se mistura com a uruguaia Rivera.
Na manhã seguinte, sigo em direção a Porto Alegre onde sou calorosamente recepcionado pelos amigos do Clube XT600, Sigo então pela conturbada BR-101, então tenho a certeza de ter chego ao Brasil, e sigo rumo ao norte passando na casa de amigos que me acompanharam pela Internet via Clube XT600 até que no dia 03 de Agosto de 2009 chego de volta a Bauru-SP!
Ao todo foram 13.115km percorridos em 30 dias, consumindo aproximadamente 770 litros de gasolina.
Observações sobre a viagem:
Viajem realizada de forma super econômica, procurando sempre que possível acomodações em albergues para viajantes e pensões familiares. Alimentação em locais simples sem apelo ao luxo.
Creio que viajar dessa forma, nos permite um maior contato com as pessoas e a cultura real do local, não consumindo a cultura vendida aos turistas convencionais. Com isso acabamos tendo a oportunidade de se aproximar de pessoas locais compartilhando com elas o seu dia a dia, fazendo da viagem uma grande aula de conhecimento.
Informações:
Viagem realizada entre 04/07/09 a 03/08/09;
O viajante: Alexandre Munhoz de Freitas, 28 anos. Técnico em Eletrônica e Estudante de Geografia;
13.115km percorridos em 30 dias;
Consumidos aproximadamente 770 litros de gasolina;
Países percorridos: Brasil. Argentina, Chile e Uruguai;
Motocicleta: Yamaha XT660R ano 2006;
Contato:
Orkut: Alexandre Munhoz
MSN: alexandrext600@hotmail.com
E-mail: recusa@terra.com.br
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