Teste: mais eletrônica e conforto na Kawasaki Ninja 1000

Em 1984, quando a Kawasaki lançou a GPZ 900 e o diretor de marketing nos Estados Unidos à época, Mike Vaughan, teve a ideia de chamá-la de Ninja, ninguém poderia imaginar o peso que o novo nome conquistaria. Desde então a marca nunca abandonou a nomenclatura em suas esportivas e sport-touring. É o caso desta Ninja 1000, uma sport-touring que tem por base a naked Z1000, portanto bem diferente da superbike ZX-10. Mais confortável, estável nas retas e gradual nas respostas ao acelerador, características que a Kawasaki acentuou nesta atualização agora vendida também no país.

Na época em que as Ninja surgiram como um sonho distante eu começava minha vida como motociclista, e quem diria que três décadas mais tarde eu estaria escrevendo sobre a mais recente delas depois de muitas horas de viagem, ainda por cima para a revista que ajudou a forjar minha paixão pelas motocicletas! Quando esta Ninja 1000 foi originalmente lançada herdava grande parte da personalidade da naked esportiva Z1000, o que significava pouca espuma no banco e um motor de 4 cilindros que repentinamente ganhava impulso em altas rotações e fazia a moto empinar com facilidade. Considerando que o comprador desta moto quer viajar com uma dose adicional de conforto (ou teria escolhido uma Z1000 e ou ZX-10) a Kawasaki reviu isso e muito mais.    

O novo design a aproxima da identidade visual da ZX-10 mais recente, além de aprimorar a proteção aerodinâmica nas laterais, para as pernas, e na dianteira, para tronco e cabeça. O para-brisa é ajustável com as mãos em até 20° e o farol de LEDs tem um alcance excepcional, foi extremamente útil para aumentar a segurança quando voltávamos do teste já à noite, por estradas secundárias sinuosas sem iluminação, até porque nele o acionamento da luz alta se soma à baixa mantendo o facho mais próximo ao mesmo tempo que amplia o alcance dezenas de metros à frente.

No banco a largura para o condutor cresceu e o comprimento para o passageiro idem, fora a revisão da camada de espuma e do formato no assento traseiro, que ganhou a elevação na parte frontal para evitar escorregões. Outra opção inteligente da Kawasaki é não ter guidões excessivamente baixos em suas Ninja sport-touring, portanto apesar da estética de inspiração esportiva e de usar semi-guidões, os suportes deles estão numa altura que não sacrifica as costas exigindo inclinação demasiada.

Numa moto para estrada de R$ 56.990 sentimos falta de cruise control, aquecedor de manoplas e tomada 12V, itens encontrados nessa faixa de valor na naked BMW S1000R (exceto a tomada) e em sua variação crossover mais cara XR. As duas BMW também vêm equipadas com suspensões ativas, enquanto as da Ninja são ajustáveis por ferramentas nas três vias no garfo e no retorno e pré-carga da mola do conjunto traseiro. O conjunto da Kawasaki se mostrou estável e preciso preservando um bom nível de conforto em pisos irregulares ao longo do roteiro que percorremos por auto-estradas e rodovias secundárias do interior, contornando as montanhas do Circuito das Águas Paulista, das serras da Cantareira e Mantiqueira.

Rápida e fácil de controlar

A base mecânica é a mesma da versão anterior, as maiores alterações foram feitas na eletrônica e a mais importante, sem dúvida, foi a adoção da Unidade de Medição Inercial, sistema que estrou na última geração de esportivas (inclusive da ZX-10) capaz de monitorar por sensores a inclinação da moto em todos os eixos: longitudinal, transversal e vertical. Com estes dados, quando necessário a central eletrônica (ECU) atua de maneira refinada sobre a entrega de potência, o controle de tração e o ABS. É possível escolher entre os modos de entrega de potência plena e reduzida a 70% e três níveis de controle de tração (mais a opção de desligá-lo).

O motor de 4 cilindros e 1.043cc produz até 142 cv a 10.000 rpm e 11,3 kgf.m a 7.300 rpm, mas não é nestes números que se nota alguma diferença, e sim nas respostas ao acelerador ao longo da subida de rotações. Como é característico dos 4 cilindros é mais dócil em baixas e médias rotações e se solta em altos regimes, mas o comportamento ao estilo de esportiva, com uma entrega de potência brusca a partir de determinada rotação, foi revisado que haja mais linearidade e segurança. Embora as respostas não sejam bruscas em baixos e médios regimes, o lado interessante dos motores de 4 cilindros com elevada capacidade cúbica é que as respostas permanecem satisfatórias, nunca serão desanimadas. No teste de aceleração a 100 km/h ficou empatada com a Ducati 959 Panigale em 3s46.

Outra virtude da Ninja 1000 é o sistema de freios potente sem ser brusco, modulado por um sistema ABS competente que também se adequa ao funcionamento em curvas. Os 47 metros percorridos até a parada completa de 100 km/h a 0 são excelentes para uma moto que em ordem de marcha pesa 235 kg, melhor do que a maioria dos modelos desta cilindrada já testados por Duas Rodas (algumas eram esportivas bem mais leves).

Avaliar o preço da Kawasaki é difícil num cenário em que escasseia a concorrência direta, já que a tendência das sport-touring caminhou nos últimos anos na direção da configuração crossover, com cursos de suspensão elevados e postura de pilotagem ereta. Considerando também este estilo de moto há opções como a Triumph Tiger Sport imediatamente abaixo, por R$ 52.990, com níveis de potência e eletrônica embarcada inferiores, enquanto somente a partir de R$ 71.900 surgem as mais sofisticadas e potentes Ducati Multistrada e BMW S1000XR. Portanto a Kawasaki fica quase sozinha nesta faixa de preço, e oferece também a alternativa Tourer com pacote que inclui malas laterais rígidas, sliders, para-brisa fumê e tomada 12V por R$ 3 mil adicionais.   

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