Uma clássica na Transamazônica

A Royal Enfield criada na Inglaterra durante o pós-guerra ainda está viva e não negou fogo: lama, areia e buracos foram vencidos à moda antiga

04/04/2016 10:06

Por Flávio Bressan

Depois de quatro anos acalentando o sonho de atravessar a Transamazônica, no início de 2015 apareceu a oportunidade através do convite de três amigos. Pretendia percorrer a BR-230 inteira, de Cabedelo (PB) a Lábrea (AM), mas o roteiro deles era diferente, partindo de Marabá (PA). Com isso e férias de 30 dias, teríamos tempo para incluir a perigosa BR-319 até Manaus (AM), um trecho de barco pelo Rio Amazonas até Santarém (PA) e a infame BR-163 de Santarém a Cuiabá (MT), retornando então para Brasília (DF). Seriam aproximadamente 9.000 km, metade por estradas de terra.

Os três amigos já experientes em off-road partiriam montados em motos trail leves de 250cc, eu tinha apenas a vontade e uma Royal Enfield 500, das novas que vieram para o Brasil em 2012 importadas da Índia. Não era a mais adequada, mas a que eu tinha para usar nessa aventura. Fizemos inclusive uma trilha de treinamento, 200 km pelo interior de Goiás, com sucesso. Passei meses preparando a moto com ajuda dos membros do meu moto-grupo: levantamos o para-lama dianteiro, fizemos um protetor de farol e suportes para malas laterais – dois galões velhos de 20 litros foram cortados e modificados para servir como malas.

Complicado escolher entre centenas de itens na bagagem, incluindo os de acampamento e peças sobressalentes, pensando na possibilidade de sua sobrevivência depender de algo. Tentamos minimizar o risco indo na época seca, mas os acertos de férias levaram a partida para perto do início das chuvas. E para piorar o trio que me convidou teve problemas e desistiu. No primeiro trecho, de Brasília até Palmas (TO), rodei 230 km e em um posto o frentista alertou que o para-lama traseiro estava quebrado! O problema era a falta de um dos parafusos de fixação e rapidamente voltei à estrada. Deu um baque na animação, a moto não é a ideal e já está desmontando pelo caminho?

No segundo dia o nível de dificuldade começou a aumentar com as estradas de terra. O objetivo era rodar pela BR-010, que não está terminada. Peguei meu primeiro trecho de terra até Tocantínia (TO), entrei na reserva indígena Xerente, rumo ao entrocamento Rio Sono-Pedro Afonso e rumei até a divisa do estado com o Maranhão, foram 400 km no total, sendo 330 km na terra. Experimentei os vários sabores de poeira, além das costeletas de vaca de vários níveis. Fui pegando confiança e até fiz trechos a 80 km/h com o pneu dianteiro original on-road.

No Maranhão a coisa foi muito pior. O trecho de 60 km até a cidade de Carolina (MA) é área rural, erma, sem conservação, e no primeiro piscinão de poeira que passei caí feio e quebrei algo no câmbio. Não me machuquei, tive trabalho para levantar a moto com todo o peso da bagagem e verifiquei que ligava, mas travou na 1ª marcha. Levei três horas para percorrer o resto do caminho, de noite, um breu total. Descobri que o protetor de farol que fiz refletia a luz para trás e ofuscava. Quando cheguei a Carolina peguei uma dica de pousada no posto e fui descansar, estava acabado. A estrada ensinando o “espertão” que ali o buraco é mais embaixo...

Lendas amazônicas

Uma coisa boa que fiz foi o seguro da moto, então na manhã seguinte fui rebocado para Paragominas (PA), onde participaria do aniversário de um moto clube. Com ajuda dos irmãos do moto clube anfitrião consegui um conserto rápido e simples: o impacto no pedal do câmbio moveu a haste do seletor de marchas do lugar, que uma vez recolocada me permitiu partir.

Entraria na Transamazônica, oficialmente chamada de BR-230, em Marabá (PA), onde instalei um mata-cachorro para evitar novos impactos nos futuros tombos que certamente viriam. Lá percebi a desatualização dos mapas, mesmo digitais, pois já existem 70 km asfaltados depois de Marabá, até a Vila de Cajazeiras. Os 110 km de terra até Novo Repartimento (PA) passam pelos limites da reserva indígena Parakanã, a estrada é estreita e o trânsito de caminhões é grande. Como estava na época seca, o poeirão que subia depois da passagem de cada caminhão tornava impossível enxergar algo. Perigosíssimo, inclusive tive que sair da frente de um caminhão que vinha atrás de mim. No meio da reserva parei para fotografar uma placa até perceber os rastros de onça na pista, vazei rapidinho!

Cheguei a Novo Repartimento por volta do meio-dia e almocei com um caminhoneiro que ajudei na estrada. Ele confirmou que havia asfalto dali para frente até Altamira (PA). Passei por Anapu (PA), famosa pela violência e conflitos de terras, abasteci e resolvi tocar até Belo Monte (PA), onde encontraria o pai de um amigo, que recebeu meus pneus off-road comprados anteriormente. Por volta de 20h já estava com os pneus amarrados na moto, e como a vila dos funcionários não permite visitantes, continuei até Altamira mesmo. Pilotando à noite no meio da selva asfaltada, cheguei ao maior município do mundo em área territorial às 22h. Procurei uma oficina para soldar o suporte da capa da corrente, que não aguentou o tranco, e o soldador, um oriental que parecia aqueles antigos fabricantes de espadas, trabalhava contando histórias sobre os próximos trechos, mistérios sobre índios de olhos azuis e naves que mergulham na terra no km 150.

Na manhã seguinte parti rumo a Medicilândia (PA), 85 km de asfalto que não aparecem nos mapas ainda. Logo após a cidade acaba o asfalto de verdade e são 1.700 km de terra até o final da rodovia. A aventura começou de verdade com 100 km de terra terríveis até Uruará (PA), muitos piscinões de poeira cobrindo valas, desníveis, buracos. Caí seis vezes, mesmo indo com cuidado, mas desta vez sem quebrar a moto graças ao mata-cachorro.

Dormi em Placas (PA) e pela manhã finalmente troquei os pneus pelos off-road que estava carregando desde Belo Monte. Deu mais segurança, claro, e depois de alguns quilômetros já estava rodando mais rápido, chegando a 60 km/h. Dormi em Itaituba, às margens do rio Tapajós, onde descansei para partir ainda de madrugada para vencer o trecho de 400 km de terra na selva até Jacareacanga (PA).

Arriscando na selva

Antes do amanhecer estava no ponto de encontro com outro motociclista que conheci no dia anterior e faria o mesmo trecho, o fim do asfalto. Olhava para o trecho de terra e só via o fim da iluminação pública, começo da escuridão na selva. Após 70 km, já dentro do Parque Nacional da Amazônia, meu pneu dianteiro furou, precisei desmontar a roda e trocar por uma câmara sobressalente. A estrada por dentro do parque também é perigosa, estreita, com movimento de picapes entre as duas cidades fazendo transporte de cargas leves e pessoas. Após 180 km saímos do parque e chegamos ao primeiro ponto de apoio, um restaurante/pousada que também vende gasolina. Tempo correndo, sol baixando, o parceiro acelerava a 80 km/h e eu corria atrás para não ficar sozinho até entramos em Jacareacanga.  Aproveitei o dia seguinte para visitar a praia do rio Tapajós e conhecer a cidade.

Entraria no Amazonas nesse dia que terminaria em Apuí (AM), depois de 300 km de terra em bom estado, mas não sem antes ver um “gato preto” atravessar a estrada e acelerar mais, apesar do barulho crescente que lembrava um rolamento ruim. A 80 km/h via uma alternância de selva e pasto cercado das fazendas de gado até atravessar Apuí, incluindo a balsa no meio do caminho para cruzar o rio Sucunduri, e como ainda eram 12h resolvi tocar até o próximo ponto mapeado, a vila de Santo Antonio do Matupi, mais 220 km. Mais uma balsa, dessa vez no rio Aripuanã, travessia rápida com preço salgado: R$ 10 se a moto estiver com outros veículos na hora da travessia ou R$ 25 sozinha na balsa. As outras balsas nos rios Xingu e Tapajós são bem mais movimentadas e paguei menos de R$ 5. Parei em Matupi (AM) já anoitecendo, a vila nem aparece nos mapas, sem sinal de celular, mas tinha wi-fi no hotel e pude enviar notícias para a família.

O próximo trecho até Humaitá (AM) foi de 180 km, passando pela aldeia Tenharim sem qualquer problema, nada de barreira na estrada e pedágio ilegal. A estrada molhada aumentou a dificuldade com poças, atoleiros, sulcos. O barro se acumulava nos pneus, que perdiam tração, e enchiam o espaço até os para-lamas. Entrei na balsa de Humaitá por volta das 16h, foram sete horas para 210 km suando debaixo do sol quente e umidade alta. Fiquei em Humaitá por dois dias enquanto choviam canivetes e deixei a moto sendo revisada. Os motociclistas locais alertaram para as condições das estradas, 200 km de terra com atoleiros até Lábrea e 600 km abandonados dentro da selva fechada até a capital Manaus. Considerando tudo isso e as dificuldades na lama do trecho anterior, tomei a dura decisão de cancelar o resto da viagem e voltar pelo asfalto das BR-364, BR-174 até Cuiabá e BR-070 até Brasília. Realizei meu sonho de atravessar a Transamazônica e vou me preparar melhor para a próxima vez, para visitar os amigos em Manaus.

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