20/04/2026 14:20
Texto e fotos: Edu Pincigher
Olhe bem para as fotos. Se eu cobrisse os logotipos, você dificilmente diria que esta moto vem de uma fabricante que, até ontem, quase ninguém conhecia no Brasil. A Zontes T350X chega ao mercado brasileiro não pedindo licença, mas chutando a porta com uma entrega visual que faz muita marca tradicional parecer estacionada no tempo. E se o design ganha o coração no showroom... é a dinâmica que convence no dia a dia. E foi com esse espírito que rodei uma semana com a nova aposta da J. Toledo/JTZ Motos.
O impacto do primeiro olhar
A T350X é um exercício master de agressividade. As linhas são angulares, facetadas, quase como se tivessem sido esculpidas por um designer de caças stealth. A frente, com o bico pronunciado e o conjunto ótico em LED que remete a algo saído de um filme de ficção científica, impõe respeito. Há proteções de tubos nas laterais dianteiras, bem ao estilo de big trails, além de recursos visuais (e operacionais) de motos maiores, como protetores de manetes e saída dupla de escape.
As rodas raiadas (única diferença da T350X para a T350, inclusive) de 19 polegadas na frente e 17 atrás, com pneus sem câmara, não são apenas funcionais; elas conferem aquela musculatura de "moto maior" que o motociclista brasileiro tanto aprecia. É o tal sex appeal que a categoria de 300-400cc costuma negligenciar em prol do custo.
Para ser bem crítico, eu diria que meu único estranhamento reside no desenho do tanque. Como ele é muito alto, bem “gordo” (com ótimos 19 litros), ele puxa esteticamente o olhar para o alto, dando uma impressão muito sutil que a T350X possui até um entre eixos curtinho. E não é. Essa distância é de 1,42 metro, o que é apenas 0,5 cm menor do que uma Honda Sahara. Mas a “impressão”, criada pelo tanque muito alto, é que a moto ficou “espremida”.
Ergonomia e Vida a Bordo
Ao montar, a confirmação da impressão já descrita: a Zontes é "cheia". Você não se sente em uma moto magrelinha. O assento, a 830 mm do solo, é bem desenhado, embora seja pouco espesso e tenha densidade da espuma firme para encarar longas jornadas — algo que o garupa também vai sentir depois de duas horas de estrada.
O painel TFT colorido é um show à parte. E bota show nisso. Esqueça aquelas telinhas monocromáticas simplórias. Aqui temos conectividade (compatível com app Carbit Ride), diferentes modos de visualização e uma clareza de informações exemplar. Faça sol, chuva, noite (...) a leitura será sempre ótima. A qualidade da tela é digna de motos acima de 900cc. São quatro opções de configuração da tela, sempre informando a mesma riqueza de dados: velocímetro, conta giros, hodômetros, temperatura de água do motor, nível do tanque, marcha engrenada e ainda computador de bordo.
E o requinte continua nos comandos: retroiluminados (um toque de classe indispensável à noite) e acionamentos elétricos para quase tudo. Quer abrir o bocal do tanque? Botão. Quer destacar o assento? Outro botão. Quer levantar o para-brisa? Mais um. Sim, o para-brisa tem ajuste elétrico de altura, algo que você só encontra em máquinas que custam o triplo do preço. É o "mimo" chinês tentando — e conseguindo — seduzir pelo valor agregado.
A chave de ignição com sistema keyless é um espetáculo. Nada de chaveirinho para colocar em um dos 1.265 bolsos da sua jaqueta... e, quase sempre, nunca achá-lo quando precisa. A Zontes T350X tem um sistema tão simples quanto genial: é uma pulseira, muito semelhante àqueles smartwatches de atletas. Grande sacada dos chineses.
Anda bem, mas...
Temos aqui um monocilíndrico de 348 cc, arrefecimento líquido e duplo comando no cabeçote. Ele entrega honestos 41 cv e de 3,34 kgfm. Na prática? É um motor girador. Abaixo dos 4.000 giros, ele é apenas civilizado. Acima disso, a música muda. Ele acorda com vigor e leva a T350X a velocidades de cruzeiro de 120-130 km/h com uma sobra de fôlego que transmite segurança para ultrapassagens. Nessa velocidade, inclusive, em estrada plana, o motor estará girando a 7.000 rpm. Como o torque máximo chega 300 rpm depois, você enrola o cabo e ela responde prontamente. E vai até cerca de 160 km/h no velocímetro – um pouco menos na velocidade real.
A vibração, característica intrínseca dos "monos", está por ali, mas é bem domada por contra-eixo de balanceamento até os 7.000 rpm. Curiosamente, essa vibração aparece de forma até gritante nas desacelerações. Você tira a mão a 7.500 rpm e surge um zunido à parte do ronco do motor, nitidamente causado por ressonância. Nada que comprometa a experiência de quem já está acostumado com a arquitetura de um monocilíndrico.
O câmbio de seis marchas é preciso, com engates curtos, e a embreagem deslizante é um bálsamo no trânsito urbano, evitando travamentos de roda em reduções mais bruscas, inclusive porque o escalonamento das marchas é bem próximo. Você sai de um semáforo, sem abusar do acelerador (trocando a 5.000 rpm) e já engrena a sexta a menos de 60 km/h. É o famoso câmbio “uma em cima da outra”, o que dá enorme agilidade para serpentear no trânsito das grandes cidades.
Dinâmica: no asfalto e na terra
A ciclística da T350X é equilibrada. O chassi de berço simples reforçado conversa bem com a suspensão dianteira invertida com pré-carga de mola e a traseira monoamortecida. No dia a dia, ela é bem confortável pra rodar na cidade, engolindo facilmente as valetas, lombadas e imperfeições do piso.
Nas curvas em estradas, a moto também surpreende, ainda que o conforto seja prioritário, ou seja, ela é um pouquinho mais macia do que as curvas de alta exigem. Permite inclinações generosas sem oscilações assustadoras, cortesia também dos pneus de boa aderência (110/80 R19 e 160/60 ZR17), mas pode pregar algum susto se apanhar um desnível do piso no meio da curva.
Quando saímos para o "off-road" leve — aquela estradinha de terra sem maiores dificuldades —, a T350X cumpre o papel. As rodas raiadas absorvem melhor os impactos que as de liga leve, e o ABS da Bosch (geração 9.1) atua de forma precisa. No entanto, convém lembrar: ela é uma crossover com aspirações aventureiras, não uma moto de enduro. O curso das suspensões é honesto, mas o foco aqui é o conforto em vias mal pavimentadas e a versatilidade, não o salto em buracos.
Os freios, com assinatura da J.Juan (grupo Brembo), são soberbos. O disco dianteiro de 320 mm atua com vontade e a modulação é excelente. É, sem dúvida, um dos melhores conjuntos da categoria.
O veredito
A Zontes T350X chega com um pacote tão rico de equipamentos que a concorrência direta (BMW G 310 GS e Kawasaki Versys-X 300) entra em situação bem desconfortável no "custo-benefício". Estamos falando de R$ 33.750, contra R$ 43 mil ou R$ 34,5 mil, respectivamente. Claro que há o receio do consumidor em abraçar um produto e uma marca recém-chegados ao país, embora a solidez do grupo – as Zontes são sempre vendidas na mesma rede de concessionários Suzuki – não deixe qualquer dúvida.
Avaliando o produto isoladamente, a T350X é uma grata surpresa. Ela é refinada, potente o suficiente para viagens e carrega uma dose de tecnologia que dita um novo padrão para o segmento de entrada/médio. Se você busca uma moto que entregue exclusividade visual e um pacote técnico recheado sem precisar pular para as 600cc, a chinesa merece o seu test-ride. Ela não é apenas um rosto bonito; ela tem conteúdo para sustentar a conversa.