AVALIAÇÃO: Ducati Multistrada V2 S

Há motos que impressionam pelos números. Outras pelo design. Ou tecnologia. Pois a big trail de 900cc da Ducati reúne tudo isso. É uma moto pronta (e qualificada) pra tudo

29/06/2026 11:45

Texto: Edu Pincigher
Fotos: Rodrigo Trassatto

O maior mérito da Ducati Multistrada V2 S consiste na capacidade plural de impressionar. É sério. Com meu 1,65 metro de altura, eu sempre tive naturais restrições às big trails – por motivos óbvios. Quem é baixinho usa algumas técnicas, como sentar com a parte posterior da coxa pra alcançar melhor o chão com o outro pé ou aproveitar os meio-fios em cruzamentos. Pois. Assim que peguei essa Ducati para o teste da semana, entrei no menu e adequei a suspensão traseira ao nível mais baixo possível. Fiquei com um dos pés plantados no chão. Ela veio pra casa de 81 ou 82 cm de altura, mérito da Ducati Skyhook Suspension Evolution. Incrível! E tudo automático.

Mas foi só o começo.

Daí pra frente, algumas centenas de quilômetros rodados depois, vou te dizer: que moto sensacional! Adequada para andar na cidade, enfrentando a buraqueira sem restrições, demonstrando grande maneabilidade no trânsito. Valente pra pegar uma rodovia e cruzá-la em altas velocidades, com desempenho de sobra e o requinte do para-brisa para desviar o vento frontal. Surpreendente nas estradinhas sinuosas, onde a mágica da suspensão acontece novamente e ela, com carga mais firme, te faz crer que você está pilotando uma naked! E, por ser uma big trail, super apta a cruzar estradas de terra com conforto e segurança.

O que mais você poderia esperar de uma moto??

Virtudes da nova geração

Durante muitos anos, a Multistrada carregou a fama de ser uma crossover sofisticada, potente e voltada para motociclistas experientes. Não era uma moto difícil, mas exigia respeito. Com a nova geração da V2 S, a Ducati mudou esse paradigma. O resultado foi, talvez, o surgimento da motocicleta mais democrática já produzida pela fábrica de Borgo Panigale.

A primeira impressão vem do visual. Ela continua sendo inconfundivelmente uma Ducati. As linhas angulosas, o conjunto ótico em LED, o tanque musculoso e a dianteira inspirada na irmã maior V4 preservam a identidade esportiva da marca. Ao mesmo tempo, tudo parece mais compacto, menos intimidador e muito mais harmonioso. Quando você sobe na moto, entretanto, começam as verdadeiras surpresas.

A ergonomia merece aplausos. A posição de pilotagem é natural. O guidão está exatamente onde deveria estar, as pedaleiras encontram um excelente equilíbrio entre esportividade e conforto, enquanto o banco oferece apoio suficiente para viagens longas sem comprometer a mobilidade durante uma tocada mais esportiva.

A redução de peso promovida pela Ducati faz enorme diferença. São 18 kg a menos em relação à geração anterior, número que, na prática, transforma seu comportamento. Em baixa velocidade ela parece uma moto de média cilindrada. Manobrar em estacionamentos, enfrentar corredores urbanos ou fazer retornos apertados deixa de ser uma tarefa que exige planejamento.

Essa leveza aparece também nas curvas. A Multistrada muda de direção com facilidade impressionante. Basta um leve comando para que ela mergulhe no traçado com precisão cirúrgica. Não existe aquela sensação típica das big trails de que é preciso convencer a motocicleta a inclinar. Aqui tudo acontece naturalmente.

Boa parte desse comportamento é mérito do novo chassi monocoque de alumínio, que trabalha em perfeita sintonia com a suspensão eletrônica Ducati Skyhook Suspension Evolution, exclusiva da versão S.

Que suspensão!

Ela consegue realizar uma tarefa que parece impossível: oferecer extremo conforto em pisos irregulares e, ao mesmo tempo, transmitir rigidez suficiente para uma pilotagem esportiva. Provei isso na prática, e com uma tremenda facilidade: acessando o menu e mudando a carga.

Nas ruas esburacadas, ela absorve impactos com competência. Nas estradas sinuosas, elimina movimentos indesejados e se torna extremamente obediente, mesmo em sequências severas de curvas. O sistema eletrônico ajusta continuamente amortecimento e retorno, adaptando-se ao ritmo da condução quase instantaneamente.

E o motor?

O novo motor bicilíndrico em V de 890cc representa uma evolução importante na filosofia da Ducati. Esqueça aquele comportamento agressivo dos antigos bicilíndricos da marca. O novo propulsor entrega potência de forma extremamente linear. São 115,6 cv que aparecem de maneira progressiva, acompanhados por um torque (9,4 kgf.m) sempre disponível desde baixas rotações. Isso significa que dificilmente o piloto será obrigado a reduzir marchas para encontrar desempenho. Basta girar o acelerador e a resposta surgirá de maneira suave, previsível e eficiente.

Quando se ultrapassa a faixa das 5.500 rpm, contudo, o DNA esportivo da Ducati desperta com intensidade. O ronco ganha personalidade, a aceleração cresce vigorosamente e a Multistrada lembra que continua sendo uma legítima representante de Borgo Panigale. O motor passa a “estralar”, se é que você me entende. Me fez lembrar dos agudos motores 2 tempos dos anos 80! Que delícia é enrolar o cabo dessa Ducati!

O câmbio de seis velocidades merece elogios. Os engates são curtos, precisos e trabalham em perfeita sintonia com o quickshifter bidirecional, que permite trocas praticamente imperceptíveis tanto nas acelerações quanto nas reduções. Em viagens, essa combinação torna a condução extremamente relaxante. E nas estradinhas repletas de curvas, a tocada fica esportiva!

Destaque para a eletrônica embarcada

A Ducati transformou a Multistrada V2 S em uma verdadeira central tecnológica sobre duas rodas. Os modos de pilotagem alteram completamente a personalidade da motocicleta. No modo Urban, ela se torna dócil e amigável para o trânsito. No Touring, privilegia conforto e suavidade. No Sport, entrega respostas imediatas do acelerador e suspensões mais firmes. Já o modo Enduro adapta os sistemas eletrônicos para enfrentar estradas de terra com mais segurança. Os modos são acessados por um botão no manete esquerdo.

Os demais controles desse punho são bem posicionados e permitem alterar todas as funções sem que o piloto precise retirar as mãos do guidão. O painel TFT colorido, por sua vez, possui excelente resolução, navegação intuitiva e leitura impecável sob qualquer condição de luminosidade.

Os sistemas eletrônicos de assistência trabalham de forma refinada: controle de tração, ABS em curvas, controle de empinada, controle de freio motor, piloto automático e monitoramento da suspensão eletrônica atuam discretamente. Em nenhum momento transmitem aquela sensação artificial de interferência exagerada. Eles trabalham nos bastidores.

Nas frenagens, a Multistrada mantém o padrão elevado da Ducati. Os freios oferecem potência abundante, excelente modulação e enorme confiança. A atuação do ABS em curvas merece destaque pela suavidade com que intervém quando necessário.

Prazer na pilotagem

É uma motocicleta capaz de cruzar centenas de quilômetros sem provocar fadiga física. Ela não exige adaptação. Não impõe sacrifícios. Não cobra experiência. Pelo contrário. Convida o piloto a permanecer cada vez mais tempo sobre ela.

Naturalmente, não se trata de uma motocicleta acessível. O preço (R$ 109.990) posiciona a Multistrada V2 S entre as aventureiras premium. Também não será a escolha ideal para quem pretende enfrentar trilhas pesadas. Apesar do modo Enduro, seu ambiente natural continua sendo o asfalto, com eventuais incursões por estradas de terra. Mas essas observações estão longe de comprometer o conjunto.

A Ducati conseguiu produzir uma motocicleta extremamente competente em qualquer tipo de uso, entregando prazer na pilotagem em qualquer situação. E talvez essa seja justamente sua maior virtude. Faz isso com uma competência rara.

A Multistrada V2 S é daquelas motos que fazem o piloto procurar um caminho mais longo para voltar para casa. E, quando uma motocicleta desperta esse desejo, significa que seu projeto cumpriu exatamente aquilo que se espera de uma grande Ducati: transformar cada quilômetro em uma experiência memorável.

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