29/01/2026 12:04
Texto e fotos: Edu Pincigher
O mercado de motocicletas custom no Brasil é um terreno de paixões profundas e críticas severas, neste caso proferidas pelos mais puristas. Preenchido por modelos que apostam pesado na nostalgia e em motores de arquitetura tradicional, o segmento “da Harley” viu a Kawasaki ousar.
As vendas são dominadas por modelos da Royal Enfield, que ocupam com competência aquele nicho de modelos de média cilindrada, entre 350 e 650cc. Têm preços acessíveis (na faixa de R$ 30 mil a R$ 40 mil), costumam ser práticas pra rodar no trânsito, são pouco visadas por assaltantes e geram um desempenho compatível com aventuras moderadas nas estradas, embora com menos vigor do que alguns motociclistas mais exigentes (como eu) gostariam.
A Kawasaki não apenas resgatou um nome icônico do seu passado, o Eliminator, como o fez com uma proposta que subverte a lógica do mercado: um motor de dois cilindros paralelos, moderno, derivado das suas esportivas, em um chassi de cruiser. E a versão SE, que tive a oportunidade de avaliar, chega para ser a cereja do bolo, com um pacote de acessórios que faz a diferença.
A primeira coisa que chama a atenção na Eliminator 500 SE é a sua estética. Ela é longa e baixa, com um entre eixos generoso de 1,52 metro e um assento a apenas 735 mm do solo, o que a torna extremamente acessível para pilotos de diversas estaturas. Falando o português claro: com 1,65 metro de altura, eu apoiei facilmente os dois pés plantados no chão, o que faz uma tremenda diferença para os baixinhos. Dificilmente consigo isso em outra moto.
O visual é clássico, mas com um quê apocalíptico, meio Mad Max. Ela possui um farol redondo de LED que remete ao estilo retrô. A versão SE adiciona uma pequena carenagem de farol, que contribui para o visual "temperamental", e protetores de bengala (as sanfoninhas no garfo dianteiro), além de uma tomada USB-C no guidão, um item de série bem-vindo. As rodas de liga leve, aro 18 na dianteira e 16 na traseira, completam o conjunto com elegância.
Mas a verdadeira revolução está no coração da máquina. Esqueça os monótonos motores que dominam o imaginário custom. A Eliminator 500 SE é movida por um motor bicilíndrico paralelo de 451cc, DOHC, com refrigeração líquida, o mesmo que equipa as novas Ninja 500 e Z500. Este propulsor entrega 51 cv de potência a 9.000 rpm e um torque de 4,3 kgfm a 7.500 rpm. São números que, para uma custom, sugerem um comportamento quase esportivo em altos giros, algo que se confirma na prática.
Em pista fechada, eu bati 170 km/h no velocímetro. E ia mais, só que a pista acabou... Outros modelos avaliados recentemente, na faixa de 400 a 450cc, mas com 40 cv, nem despencadas do 20º andar se aproximariam disso. E o porquê que esse desempenho é importante? Simples: você está rodando numa estrada a 120 km/h, com garupa, e precisa fazer uma ultrapassagem. A Eliminator a fará rapidamente com uma enorme folga de acelerador, sem nem se aproximar da rotação final do motor.
Experiência de Pilotagem: parece uma street
Ao montar na Eliminator 500 SE, a sensação de controle é imediata. O baixo centro de gravidade e o peso leve (177 kg em ordem de marcha) facilitam manobras em baixa velocidade e no trânsito urbano, onde a moto também se sente em casa. A posição de pilotagem é relaxada e confortável, com pedaleiras em posição intermediária – mais recuadas do que em uma cruiser tradicional, o que agrada a quem prefere uma ergonomia mais convencional.
(Uma vez, eu testei uma Harley-Davidson V-Rod. As pedaleiras eram tão lá na frente, mas tão avançadas, que eu tinha que descolar a b... do banco, segurar no guidão e esticar a perna lááááá na frente pra “laçar” o pedal de câmbio. Baixinho sofre...)
Na cidade, a entrega de potência suave e previsível do motor Kawasaki é um trunfo. A embreagem assistida e deslizante é extremamente leve, tornando as trocas de marcha, feitas através de um câmbio de seis velocidades suave como manteiga, uma tarefa prazerosa, mesmo em tráfego intenso.
O motor responde bem desde os baixos giros, mas é quando se explora a faixa de rotação mais alta que a herança Ninja aparece, com um ímpeto que surpreende para o segmento custom. Por ela ser somente 2 cm mais larga que uma Honda CG160 Titan (76,5 cm contra 74,5 cm da CG), você anda com facilidade e segurança nos corredores em congestionamentos. Vira uma espécie de “motoboy tiozão”.
Em estradas sinuosas, por sua vez, a Eliminator mostra uma agilidade que destoa da maioria das concorrentes. O chassi de treliça de aço leve e a suspensão bem calibrada – garfo telescópico de 41 mm na dianteira e dois amortecedores na traseira com ajuste de pré-carga – permitem uma pilotagem mais engajada. O limite, claro, é imposto pela arquitetura custom, com uma distância do solo que pode ser um problema se o piloto exagerar na inclinação, mas para uma tocada "normal", é mais do que suficiente para se divertir.
No que tange ao conforto em viagens mais longas, a Eliminator se sai bem. A posição de pilotagem e o assento largo oferecem um bom suporte. A suspensão absorve bem as imperfeições do asfalto. No entanto, o assento do passageiro (um minúsculo quadradinho) é pequeno e desconfortável, adequado apenas para trechos curtos. O painel de instrumentos é totalmente digital, com conectividade para smartphone via Bluetooth através do aplicativo Rideology The App, que fornece informações adicionais sobre a moto.
Pra quem ela foi criada
A Kawasaki Eliminator 500 SE está disponível no Brasil com preço sugerido de R$ 41.490, apenas R$ 1.500 a mais que a versão de entrada. É um valor bem acima de sua principal concorrente, a Royal Enfield Super Meteor 650 (R$ 34.990). Mas lembrando que a rival tem 47 cv e um temperamento bem mais “doce”, digamos assim, o valor de R$ 6,5 mil a mais acaba compensando para motociclistas que exigem um rendimento mais esportivo. Nem todos. Mas compensa, repito, para esses mais exigentes.
É uma moto que quebra paradigmas. Oferece o estilo e a facilidade de pilotagem de uma cruiser, mas com a performance, a agilidade e a modernidade de um motor que pulsa com a alma das esportivas da marca. Agrada tanto ao piloto iniciante, pela sua docilidade e acessibilidade, quanto ao mais experiente, que busca uma moto leve e divertida para o dia a dia ou para um passeio de fim de semana.
Seu charme reside exatamente nesse "duplo caráter". Não é a custom mais tradicional, e nem quer ser. É uma Kawasaki, com tudo o que isso significa em termos de engenharia e performance. Para quem busca uma moto com personalidade, estilo marcante e motor com um quê acima da concorrência, a Eliminator 500 SE é uma escolha que merece ser seriamente considerada.