AVALIAÇÃO: fuja do óbvio das streets com a Haojue DL160

A crossover aposta numa fórmula mecânica convencional, mas capricha no estilo para seduzir compradores de motos de entrada

30/03/2026 17:28

Texto e fotos: Edu Pincigher

Você conhece a receita mecânica composta por um motor de 150 a 160cc, refrigerado a ar, com câmbio de 5 marchas? Claro que conhece. Só no ano passado, essa receita, que é o bê-a-bá das motocicletas brasileiras, foi empregada em mais de 720 mil unidades vendidas, cerca de um terço de tudo o que foi emplacado no país. A CG é assim, a Bros, a Factor, a FZ15, a Crosser. Honda e Yamaha nadam de braçada nessa configuração.

O que não quer dizer que novos entrantes, isto é, marcas relativamente novas no mercado nacional, não possam se candidatar a filar um naco desse vasto segmento. E se o predomínio de Honda e Yamaha ocorre por terem grande tradição no país, além de confiabilidade e competência na formulação dessa receita, elas não são capazes – nenhum produto nunca é – de agradarem a todos. Pense no design de cada uma delas.

Percebe onde sobra uma frestinha para as demais?

Pois é exatamente nesse nicho que surge a Haojue DL160. Pra começar, ela não é nem street. Também não é uma trail (como Bros e Crosser). Ela é a exata mistura dos dois estilos. É uma crossover, para usar um termo moderno que quer dizer o seguinte: mecanicamente, ela tem tudo de uma moto urbana, inclusive os pneus totalmente voltados para o on-road, mas oferece um visual semelhante a uma trail, com para lamas duplos na frente e atrás. Nem tente encarar uma trilha. Não, não dá. Mas que é um fato novo, e que agrega valor, pois você ter uma opção visualmente mais “adventure”, claro que é.

(Se fosse usar os automóveis como exemplo, diria que a DL é como as versões aventureiras, tipo CrossFox, lembra? Tinha tudo de um Fox. Mas era mais charmoso).

E só essa característica, além de uma mecânica bem ajustadinha, já pode ser capaz de distingui-la. Vou te contar: usei uma DL160 diariamente por 1 semana. Quase deu vontade de abandonar minha scooter: que opção legal que ela é!

Conhecendo a DL

No exterior, essa marca é o braço chinês da Suzuki. Trazida ao Brasil pela J. Toledo, a Haojue DL 160 compartilha o pitoresco apelido de “Mini-V-Strom”, pois tem exatamente a mesma proposta da crossover da Suzuki. Logo de cara, a DL 160 engana. Ela parece ter porte de moto maior. O bico característico da família V-Strom, o conjunto ótico em LED com luzes de rodagem diurna (DRL) e as carenagens laterais robustas dão a ela uma musculatura que as rivais não têm.

O acabamento da Haojue é superior à média da categoria de entrada. Não há rebarbas nos plásticos, o encaixe das peças é firme e a pintura tem um brilho que passa a sensação de durabilidade. O para-brisa, embora fixo e baixo, cumpre o papel de desviar o vento do peito em velocidades de cruzeiro, reduzindo o cansaço em trajetos mais longos. Cheguei a fazer uma pequena viagem ao interior de São Paulo com ela. E a aerodinâmica foi outro ponto a favor.

Se você, como eu, já passou dos 30 (ou 40), ou ainda 50, sabe que a coluna cobra o preço no fim do dia. A ergonomia da DL160 é um dos seus maiores trunfos. O guidão é alto, permitindo que os braços fiquem relaxados. Mas é curiosamente estreito. Basta dizer que ela é apenas 1 cm mais larga que a CG. Já pensou o que isso ajuda nos corredores de congestionamentos? Já as pedaleiras são ligeiramente recuadas, mas não o suficiente para cansar as pernas.

O destaque ainda surge para o selim em dois níveis. A espuma é de densidade média-macia, ideal para quem passa horas em cima da moto. O espaço é generoso para o garupa e as alças laterais são robustas, facilitando a fixação de bauletos ou amarrações de carga. A altura do assento, de 795 mm, é democrática, permitindo que pilotos de 1,65 m coloquem os pés no chão com confiança.

Motor não é o seu forte. Mas não é fraco, não

É um monocilíndrico de 162 cc, refrigerado a ar, capaz de entregar 14,9 cv a 8.000 rpm com torque máximo de 1,43 kgfm a 6.500 rpm. Se os números não impressionam, a curva de torque é das melhores para a categoria. A DL160 tem uma entrega linear, perfeitamente adequada ao escalonamento do câmbio. Aliás, que câmbio gostoso de “pedalar”. São engates macios, muito precisos e que garantem um conforto ao rodar incomum para a categoria. A única particularidade é que a 5ª marcha é bem curta, fazendo com que você atinja a velocidade máxima de 115 km/h a 8.500 rpm.

Mas caso surja uma descida, e você veja o velocímetro digital chegar aos 120 ou 125 km/h, o conta giros estará berrando a 9.000 rpm e uma curiosa luz de advertência acenderá no quadro de instrumentos: o “RPM”, que começará a piscar sem parar. Bastaria uma relação um pouquinho mais longa e o problema estaria resolvido.

Bem equipada

A suspensão dianteira telescópica e a traseira monoamortecida (com pré-carga da mola ajustável em até sete posições) têm cursos decentes (110 mm e 125 mm, respectivamente), mas o ajuste é voltado para o conforto urbano. Ela filtra bem os remendos de asfalto e as famosas "costelas de vaca", mas se você tentar entrar forte demais em uma curva de alta, sentirá um pouco de oscilação natural da altura da moto.

A DL 160 traz freio a disco nas duas rodas com ABS, de funcionamento bem satisfatório – e incomum no segmento. Já o painel é 100% digital, com fundo escuro (negativo), o que facilita a leitura sob sol forte. Ele traz tudo o que o motociclista urbano precisa: velocímetro, conta giros, indicador de marcha (fundamental para iniciantes), hodômetro total e parcial, relógio e indicador de troca de óleo. No manete direito, ela dá a opção anacrônica de ligar lanterna e faróis, o que, no Brasil, nem é mais necessário. É sempre ligado.

E a cereja do bolo: uma tomada USB integrada próxima ao guidão, protegida por uma capa de borracha. Nada de adaptações para carregar o celular. Com médias de consumo que passam de 45 km/l, o tanque de 13 litros aponta para uma autonomia de quase 600 km.

Disponível nas cores azul, preta fosca, preta e vermelha, o preço sugerido de R$ 21.470 a coloca cerca de R$ 1.000 mais cara que uma CG Titan. Para quem valoriza o visual diferente de alguns milhões de outros motociclistas no país, a DL160 é uma opção a ser considerada. É uma moto honesta, extremamente bem construída e que se candidata como alternativa a quem quiser sair do “lugar comum”.

 

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