AVALIAÇÃO: Haojue Master Ride 150

Trazida pela J. Toledo (Suzuki), a chinesa é uma lição de dignidade que o segmento de entrada precisava. Tem estilo, é boa de andar e oferece um dos preços mais acessíveis do país

01/06/2026 16:06

Texto e fotos: Edu Pincigher

Olhe para o mercado de baixa cilindrada no Brasil. Durante anos, o motociclista que buscava uma moto de 150-160cc foi condenado ao pragmatismo absoluto das motos streets: visuais genéricos, painéis simplórios e total ausência de personalidade. Era a ditadura da utilidade. Zero emoção. Mas aí você bate o olho na Haojue Master Ride 150 e percebe que finalmente uma marca decidiu tratar o motociclista iniciante – ou aquele que quer apenas um veículo urbano econômico – com virtudes diferentes da racionalidade eternamente empregada pelas marcas de volume.

Ela custa R$ 16.928 + frete. Simplesmente a segunda moto mais barata do Brasil. Perde só para a Bajaj Dominar Pulsar 150, que sai por cerca de R$ 500 a menos. A receita mecânica é bem básica: motor de 150cc arrefecido a ar e câmbio de 5 marchas. Mas a simplicidade encerra-se por aqui: a Master Ride é repleta de detalhes “custom”. E tudo isso por um valor mais acessível do que qualquer Factor ou CG. Não é pouca coisa.

A Master Ride não quer ser apenas mais uma na multidão de semáforos. Ela quer desfilar. E foi com a missão de entender se essa mini-custom entrega o que o visual promete que passei uma semana desbravando o caos urbano, as vias rápidas e até uns bons 160 km de rodovias com a pequena notável da marca chinesa.

Orgulho de ser uma motocicleta diferente
Sejamos honestos: o tamanho impressiona. A Master Ride 150 adota a cartilha das clássicas estradeiras americanas, mas em escala reduzida. Há cromados em abundância, abas laterais que encorpam o motor, para-lamas envolventes e um desenho de farol em formato de diamante que remete diretamente às motos de maior cilindrada. Os alforjes rígidos laterais, que vêm de série, não são apenas práticos para carregar a capa de chuva e as luvas; eles completam uma traseira musculosa que faz a moto parecer uma 250cc para os olhos leigos. O modelo ainda tem protetores de motor e sissy bar.

O nível de acabamento é outro grande trunfo. A pintura tem brilho profundo, as peças plásticas são encaixadas com precisão milimétrica e não há cabos soltos ou soldas grosseiras aparentes. É o tipo de moto atrai olhares de entregadores. “É uma 300?”, me perguntaram duas vezes. Esse “orgulho de posse” é algo raríssimo na categoria de entrada.

Ergonomia: o ponto mais alto nesta moto de entrada
Ao sentar na Master Ride, a ergonomia custom logo se destaca. O assento está a meros 725 mm do solo, o que significa que qualquer piloto, independentemente da altura, vai apoiar os dois pés firmemente no chão. As pedaleiras são largas, confortáveis e posicionadas à frente, permitindo que as pernas fiquem relaxadas.

O guidão, estilo beach bar, é alto e recuado. A postura resultante é ereta, imponente e extremamente confortável para o trânsito do dia a dia. Você não cansa. O painel de instrumentos é dividido em dois palcos, outra herança das custom puristas: um velocímetro analógico sobre o guidão, que acrescenta um pequeno visor digital que mostra a marcha engatada, e um charmoso display secundário em cima do tanque, que traz as luzes espia, nível do tanque e hodômetros. É um capricho visual que pouquíssimas motos dessa faixa de preço oferecem.

Motor TSR é apenas “OK”
Debaixo de tantos adereços visuais, pulsa o motor monocilíndrico TSR de 149 cc, arrefecido a ar e alimentado por injeção eletrônica. Ele entrega 12,1 cv de potência a 8.000 rpm e um torque de 1,16 kgfm a 6.000 rpm. Se você busca acelerações de arrancar os braços, esqueça. A proposta aqui é outra. Qualquer scooter vai largar na sua frente nas saídas de semáforos.

Este motor é um monumento à suavidade. Ele praticamente não vibra, graças a um sistema de balanceadores internos muito bem calibrado pela Haojue (que, vale lembrar, é a fabricante chinesa que é parceira histórica da Suzuki). O câmbio de cinco marchas tem engates tão macios e precisos que parecem manteiga. A embreagem é leve, ideal para quem vai enfrentar horas de engarrafamento nas grandes cidades.

Na cidade, ainda que não se destaque no desempenho, a Master Ride se move com boa agilidade. O torque aparece cedo, permitindo retomar a velocidade em marchas mais longas sem engasgos. Na rodovia, contudo, o cenário pede paciência. A velocidade de cruzeiro confortável fica entre 90 km/h e 100 km/h. Chegar aos 110 km/h é possível, mas exige pista plana, vento a favor e o motor trabalhando cheio. Ela é uma excelente companheira que aceita pequenas incursões rodoviárias de fim de semana, desde que você não tenha pressa.

Saí pra ultrapassar um caminhão numa autoestrada no alto de um aclive. Fiz a ultrapassagem, só que começou uma descida. Dei todo o gás possível. E a Master Ride não passava de 120 km/h. Mesmo na descida. E o caminhão que eu havia acabado de ultrapassar... passava de 120 km/h. Resultado: fiquei preso na faixa de esquerda, sem poder retornar à faixa do meio, pois o tal caminhão vinha mais rápido do que eu. É uma situação que merece atenção e cuidado nas rodovias onde se imprimem altas velocidades.

Ciclística e freios: confiabilidade
Equipada com rodas de liga leve (aro 18 na frente e 16 atrás), a Master Ride ignora a necessidade de usar pneus com câmara, facilitando a vida em caso de furos. A suspensão dianteira tem curso honesto e copia bem o asfalto, enquanto a traseira, com duplo amortecedor, cumpre o seu papel. Por ter a traseira mais baixa e curso limitado, buracos mais profundos vão mandar um aviso direto para a sua lombar, mas nada que destoe da média das motos urbanas.

O sistema de freios conta com disco na frente e tambor na traseira, interligados pelo sistema CBS. Ao pisar no freio traseiro, uma porcentagem da força é enviada para a pinça dianteira. A frenagem é progressiva e eficiente para o peso e proposta da moto. Senti falta de um sistema ABS? Sim, em pisos molhados ele sempre faz falta, mas o CBS dá conta do recado dentro do limite legal de velocidade da moto. Só estranhei o curso da alavanca de freio. Como o pedal é avançado, e freios a tambor são raros nas motocicletas de hoje em dia, achei o curso muito longo, ou seja, você precisa fazer um movimento mais “largo” do pé direito para usar o freio. Mas é rápido para se acostumar, sem maiores problemas.

O consumo merece um parágrafo de aplausos. Em nosso circuito misto de testes, a Master Ride cravou médias impressionantes na casa dos 39 a 41 km/l. Com o tanque de 11,5 litros, a autonomia passa facilmente dos 450 km. Seu bolso agradece.

Compro ou não compro?
A Haojue Master Ride 150 não é apenas uma opção de transporte racional, com um preço acessível. Ela é uma escolha emocional legítima para quem quer se diferenciar no trânsito sem precisar gastar uma fortuna. Ela entrega estilo, conforto de moto grande, um nível de vibração bem aceitável e a praticidade dos alforjes de série por um preço competitivo.

O maior desafio da Master Ride não está na mecânica, que se prova robusta e confiável, mas sim em vencer um hábito histórico do mercado brasileiro, que cultua Honda e Yamaha. Avaliada estritamente pelo que entrega pelo seu dinheiro, ela é uma das motocicletas mais honestas, carismáticas e bem-acabadas do segmento de entrada. Talvez não seja ágil o suficiente para substituir as marcas tradicionais no corre-corre de entregadores. Mas pra quem quer desfilar, ou usar no dia a dia para ir ao trabalho e/ou escola, olha, boa opção.

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