AVALIAÇÃO: Harley-Davidson Sportster S

Motor de 121 cv gosta de giro e é um canhão pra acelerar. Painel TFT, muita eletrônica, freios Brembo. Só que a Harley coloca as pedaleiras lá na frente. E acaba dando certo

10/09/2026 11:09

Texto e fotos: Edu Pincigher

Talvez esta seja uma das Harley que menos agrade aos harleiros mais tradicionais. E, justamente por isso, talvez seja uma das Harley-Davidson mais interessantes da atualidade.

A Sportster S é uma moto cheia de contradições. Começa pelo motor Revolution Max 1250T. Esqueça aquele V2 grandalhão, refrigerado a ar, trabalhando preguiçosamente em baixa rotação. Aqui temos 1.252 cm³, refrigeração líquida, duplo comando no cabeçote, comando variável e 121 cv. E ele gosta de giro.

A primeira surpresa aparece justamente quando você acelera. A Sportster S anda muito mais do que sua aparência de custom sugere. O motor sobe de rotação rapidamente e continua empurrando quando uma Harley mais tradicional provavelmente já estaria pedindo outra marcha.

E aí começa a incoerência.

A Harley fez um monte de coisas para essa moto andar forte. Além do Revolution Max, colocou suspensão dianteira invertida, freios Brembo – embora com um único disco na frente – e um pacote eletrônico que inclui modos de pilotagem, controle de tração, ABS e controle de freio-motor.

Depois colocou seus pés lá na frente. Os comandos avançados combinam perfeitamente com o visual da Sportster S, mas não com aquilo que o motor convida você a fazer. Numa pilotagem mais esportiva, gosto de usar as pernas para apoiar o corpo e transferir peso. Com os pés projetados para a frente, boa parte dessa possibilidade desaparece. Você começa a andar rápido e fica meio “vendido” no controle da motocicleta. Não dá pra laçá-la com as pernas como você faria em uma naked.

Só que, depois de algum tempo rodando, comecei a perceber que talvez essa incoerência seja proposital. Se colocasse pedaleiras recuadas, a Harley provavelmente criaria apenas mais uma naked muito potente. Do jeito que está, continua sendo uma Harley.

O pneu que parece traseiro

Outra coisa chama atenção imediatamente: o gigantesco pneu dianteiro 160/70 R17. Para efeito de comparação, superbikes usam normalmente pneus dianteiros de 120 mm.

Visualmente, funciona muito bem. A frente larga ajuda a construir aquela aparência musculosa, quase de dragster. Dinamicamente, porém, existe preço a pagar.

A Sportster S não é muito fácil de ser domada em curvas. É preciso mostrar a ela onde você quer ir. O pneu largo aumenta a sensação de massa na dianteira e exige mais decisão nas mudanças de direção.

Mas seria injusto concluir daí que ela “só anda em linha reta”. Depois que você entende seu comportamento e coloca a moto na trajetória, ela transmite bastante segurança. São 228 kg em ordem de marcha, mas o centro de gravidade baixo e o assento a apenas 765 mm do solo tornam o conjunto muito menos intimidador do que os números sugerem. E as pedaleiras avisam até cedo demais que você está “deitando” muito. Raspa em qualquer curvinha.

E o calor?

Há outro assunto impossível de ignorar. O escapamento 2-1-2 passa alto pelo lado direito, muito próximo da perna.

No trânsito, especialmente parado, o calor aparece. Não chegou, durante meu uso, ao ponto de transformar a moto numa tortura, mas está lá e pode incomodar bastante dependendo da temperatura ambiente e do tempo enfrentando congestionamento.

Em movimento, naturalmente, a situação melhora. É uma consequência de uma solução estética que ajuda muito a definir a moto. Tirar aquele escape dali provavelmente resolveria parte do problema. Também tiraria boa parte da personalidade da Sportster S.

E chegamos novamente à mesma questão.

A Sportster S não parece ter sido criada procurando racionalidade absoluta. Seu tanque leva apenas 11,7 litros. O pneu dianteiro é exageradamente largo. O escape esquenta. As pedaleiras estão onde um piloto querendo explorar os 121 cv talvez não desejasse.

Mas talvez seja justamente esse o ponto.

Ela tem desempenho suficiente para surpreender quem ainda associa Harley apenas a motos grandes e lentas, sem tentar virar uma naked japonesa ou europeia. É moderna, tecnológica e muito rápida, mas continua estranha de pilotar, exatamente do jeitinho que uma Harley precisa ser.

Depois de andar com ela, a incoerência deixou de me incomodar. Na verdade, foi justamente o que eu mais gostei. Preço de venda: R$ 129.700. Ou seja, nenhuma dúvida: é uma legítima Harley-Davidson.

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