08/06/2026 13:13
Texto e fotos: Edu Pincigher
Diga-me a verdade: quantas vezes você já se pegou medindo o valor de uma motocicleta unicamente pela cilindrada ou pela potência do motor? Vivemos em uma época inflacionada por dados técnicos superlativos, onde parece que só existe dignidade nas duas rodas se houver eletrônica envolvida, potência abundante e design chamativo.
Isso, claro, é engenharia de ponta. Mas será que é só isso?
A virtude destina-se só a quem projeta máquinas que rodam a 300 km/h no final da reta de um autódromo? Ou será mais justo também acalentar quem constrói um veículo capaz de dar a partida diariamente, enfrentar todo tipo de piso por qualquer cidade desse país, rodar mais de 150 km em um dia, caso sirva a um motofretista, carregar as compras da semana e, ainda, ter um custo por quilômetro rodado inferior ao que você gastaria com transporte público?
Bem-vindo à realidade da Honda Biz 125 EX.
A versão topo de linha da motoneta mais famosa do Brasil consolida um amadurecimento técnico sem precedentes na história das duas rodas. Não estamos falando de uma revolução profunda, mas sim de uma engenharia de refinamento cirúrgico. A Honda sabe perfeitamente onde mexe e, mais importante, sabe o que não deve estragar. O modelo 2027, com as poucas mudanças que sofreu, mantém a coroa da praticidade com modificações estéticas e estruturais sutis, provando que o foco continua sendo a eficiência.
E quem adquire uma Biz, seja para trabalhar em entregas, ou mesmo para o transporte diário para o trabalho e/ou escola, possivelmente queira isso acima de tudo: eficiência. E nisso ela é imbatível.
Design e ergonomia: aula de pragmatismo
Esteticamente, a Biz 125 EX 2027 não berra. Mas consegue algum destaque. As novas opções de pintura perolizada jogam uma luz de sofisticação sobre uma silhueta que todo brasileiro reconhece de longe. O escudo frontal foi ligeiramente esculpido, mas o grande trunfo visual (e funcional) está no conjunto ótico. As luzes de posição em LED trazem uma assinatura moderna, garantindo que a motoneta seja vista no trânsito pesado com facilidade, embora a marca ainda insista em lâmpadas halógenas convencionais nos piscas e no farol principal para conter custos e se manter competitiva no mercado de reposição.
Ao subir na moto, você percebe o trabalho de ergonomia. A posição do assento, com seus 753 mm de altura em relação ao solo, foi redesenhada. A espuma tem nova densidade e a textura impede que o piloto escorregue durante frenagens mais fortes. O escudo interno agora abriga um pequeno porta-objetos aberto ao alcance das mãos, acompanhado por uma providencial tomada USB-C de carregamento rápido. Detalhes bobos? Experimente passar quatro horas cruzando o trânsito com o smartphone sem bateria para entender o valor dessa porta USB.
Dinâmica de pilotagem: a Biz é única
Se há uma mudança que choca os veteranos e abraça os novatos é a arquitetura dos comandos de frenagem. A Honda extinguiu o tradicional pedal de freio do pé direito. Agora, os freios são operados exclusivamente pelas mãos, como em qualquer scooter: o manete direito comanda a roda dianteira e o manete esquerdo aciona o freio traseiro, distribuído eletromecanicamente pelo sistema CBS (Combined Brake System).
No início, confesso, eu vivi dois problemas de adaptação. O primeiro foi o pé direito, que busca o vazio de forma instintiva. Mas bastam dez minutos no corredor para perceber a genialidade da mudança. Ao eliminar o pedal, a Honda limpou a área dos pés, permitindo uma posição de pilotagem muito mais relaxada. A frenagem combinada atua de forma equilibrada: pressionar o manete esquerdo aciona o tambor traseiro de 130 mm e envia a pressão correta para o disco dianteiro de 220 mm. O resultado é uma parada progressiva, sem sustos, ideal para quem está iniciando a vida sobre duas rodas.
O segundo consistiu em voltar a lidar com o câmbio de 4 marchas invertido ante ao que estamos acostumados em todas as outras motos. Você engrena as marchas mais altas sempre movendo a alavanca pra baixo com a ponta do pé esquerdo e reduz com o calcanhar – a última vez que “trabalhei” com esse tipo de transmissão foi em mil, novecentos e preto e branco, quando a CG125 usava esse sistema – até 1984. Tem que se concentrar pra engatar 2ª, 3ª e 4ª “pra baixo”. Mas isso acontece com quem, como eu, troca de moto toda semana. O comprador efetivo da Biz, se só tiver a dita cuja como moto, logo se acostuma.
Motor 125 cc: aula de economia
O motor monocilíndrico de 123,9 cc com comando OHC é uma aula de eficiência. Rendendo 9,53 cv de potência e 1,03 kgfm de torque, ele não foi feito para arrancar suspiros, mas sim para entregar torque exatamente onde você precisa: nas saídas de semáforo e nas retomadas urbanas de baixa velocidade, fruto, inclusive, da alteração feita na linha 2025, quando ela ganhou um cilindro com maior curso e menor diâmetro, o que impactou diretamente em uma melhor curva de torque.
A versão EX mantém com exclusividade a tecnologia FlexOne, permitindo que você escolha entre gasolina e etanol. São números avassaladores de consumo. Conduzindo de forma caprichada, voltada à economia, você atingirá médias que superam os 50 km/l (gasolina). Com um pequeno tanque de 5 litros sob o assento, a Biz entrega uma autonomia teórica que passa dos 250 km.
O câmbio semiautomático rotativo de 4 marchas continua dispensando o manete de embreagem. As trocas são suaves e o sistema rotativo permite engatar o neutro diretamente a partir da quarta marcha assim que a moto para totalmente em um cruzamento. É o máximo de simplicidade mecânica que a engenharia consegue prover sem adotar o peso extra de uma transmissão CVT automática de scooter.
Ciclística e o espaço sob o banco
As rodas de liga leve calçam pneus do tipo tubeless (sem câmara), um item obrigatório para quem não quer ficar parado na avenida por causa de um prego espetado na banda de rodagem. A leitura de piso das suspensões é honesta. Não espere o comportamento refinado de garfos invertidos de motos esportivas, mas a Biz absorve o asfalto lunar brasileiro com dignidade, auxiliada pela roda dianteira de 17 polegadas que digere buracos de forma muito mais segura do que as rodinhas pequenas das scooters.
E, claro, há o espaço sob o assento. Embora as mudanças do chassi e do motor tenham alterado sutilmente as dimensões internas, o compartimento continua acondicionando um capacete aberto ou pequenos objetos. A abertura agora é operada diretamente na fenda da chave de ignição, poupando o piloto do incômodo de tirar a chave do contato para abrir o banco.
A lógica imbatível
A Honda Biz 125 EX não é um veículo de ostentação ou prazer ao pilotar. Ela é um manifesto sobre racionalidade. É a resposta exata para quem precisa se deslocar de forma rápida, barata e sem o estresse do transporte público.
Ela preserva seu valor de revenda histórico, entrega robustez à prova de maus-tratos e, nesta versão mais refinada, prova que a simplicidade pode, sim, conviver com o conforto tecnológico do painel digital e da tomada USB. Se o seu objetivo é vencer o trânsito com o menor custo por quilômetro rodado possível, junte R$ 16.840 e vá de Biz EX. Ela continua sendo a rainha incontestável do asfalto.