11/05/2026 04:05
Texto e fotos: Edu Pincigher
Esqueça, por um momento, a ditadura dos números. Se você é daqueles que só abrem o sorriso diante de mais de 150 cv de potência e pacotes eletrônicos que mais parecem a central de comando de um jato comercial, talvez esta avaliação não seja para você. Mas, se você compreende que a verdadeira maestria de uma motocicleta reside na harmonia de ser eficiente em todas as circunstâncias de uso – sem ser brilhante, mas extremamente eficiente –, sente-se. Vamos conversar sobre a nova Honda CB500 Hornet.
A Honda operou uma manobra estratégica ousada. Aposentar o sufixo "F" – que acompanhou a naked de 500cc por uma década – e batizá-la com o icônico nome Hornet foi, no mínimo, uma provocação aos puristas. Afinal, para muitos, “Hornet” ainda é sinônimo do grito agudo de quatro cilindros em linha. Mas, ao pilotar esta nova geração, você percebe que a provocação tem fundamento. Não se trata de uma cópia da lenda, mas de uma reinterpretação moderna do que significa ser uma moto ágil, urbana, rodoviária, confortável e, acima de tudo (vou repetir mais uma vez), eficiente.
Design: moto-moto
Visualmente, a CB500 Hornet abandonou a timidez. As linhas agora são mais angulares, agressivas, nitidamente inspiradas na “irmã maior”, a CB1000R, e na nova CB750 Hornet. O novo conjunto ótico em LED não é apenas um exercício estético. Ele confere à frente da moto uma assinatura luminosa que impõe respeito no corredor. As novas entradas de ar laterais cumprem sua função aerodinâmica, mas o ganho real está na postura: o piloto se sente mais "dentro" da moto, com as pernas abraçando o tanque de forma natural. É uma moto que parece estar em movimento mesmo estacionada.
O que mais me agrada, entretanto, e isso é um gosto absolutamente particular, é que a 500 Hornet tem cara de “moto”, Aliás, de “moto-moto”. Talvez porque remeta à minha infância, quando esse estilo meio street meio naked prevalecia, principalmente na família “Four” da Honda. Coloque na minha frente uma superbike, uma big trail, uma custom e uma naked, e eu vou apontar para a última como a que tem o design que mais me remete à definição purista de uma moto. Polêmico, eu sei. Mas é como eu me identifico com esse segmento.
Sem brilho. Mas com muita eficiência
O motor de dois cilindros paralelos e 471cc permanece o mesmo em sua arquitetura básica, mas não se engane. A Honda refinou o mapeamento da injeção para que a entrega de torque em baixas e médias rotações fosse ainda mais linear. São 48 cv de potência e um torque de 4,38 kgfm que, no papel, podem parecer modestos. Na prática? É o motor mais elástico da categoria.
A mágica aqui não é a velocidade final – embora ela cruze rodovias com uma saúde invejável –, mas sim a elasticidade. Você pode rodar em quarta marcha na cidade sem o soluço característico de motores maiores, e quando decide girar o acelerador, a resposta é imediata, sem hesitação. É um propulsor que não briga com o piloto. Ele colabora. Assim como há uma reserva de desempenho lá no alto, mesmo acima dos 120 km/h, em sexta marcha, garantindo ultrapassagens bem seguras.
Ciclística rompe paradigmas
Nisso, ela não é média. É extremamente virtuosa. Explico. Aqui é onde a CB500 Hornet realmente justifica o novo nome. A grande estrela do conjunto é a suspensão dianteira invertida Showa SFF-BP (Separate Function Fork – Big Piston) de 41 mm. Se a antiga CB500F já era uma moto obediente, a Hornet é uma moto telepática.
Ao atacar uma sequência de curvas, a frente se mantém plantada, transmitindo ao piloto exatamente o que está acontecendo sob o pneu Dunlop Sportmax. Não há aquela sensação de mergulho excessivo em frenagens fortes, graças também às novas pinças de freio Nissin de montagem radial, que mordem o disco duplo dianteiro com uma progressividade de moto de pista. É uma ciclística que perdoa erros de iniciantes e instiga os veteranos a buscarem ângulos de inclinação mais ousados.
Aconteceu comigo logo que entrei na estrada, com a impressão de que era uma moto confortável, e bem macia, típica para desfilar nos cenários urbanos. Eis que entro em uma alça de ponte na faixa da direita meio “pendurado”, com outro carro exatamente do meu lado esquerdo.
No meio da curva, vi que havia uma senhora emenda de concreto, daquelas que dão tranco sem dó nas suspensões. E eu deitado... Numa fração de segundo, lembrei o quanto a suspensão era macia, bem como não tinha como sair da posição inclinada e alargar o raio da curva. “Seja o que Deus quis...” Sabe o que aconteceu? Nada! Ela assimilou a emenda da pista e não desviou um milímetro a trajetória. Mérito da tal suspensão Showa, sem dúvidas, e da traseira monoamortecida, com 5 níveis de ajuste de pré-carga.
Tecnologia a serviço da segurança
Pela primeira vez, a família 500 recebe o HSTC (Honda Selectable Torque Control). Há quem diga que 48 cv não precisam de controle de tração. Eu discordo. Em um dia de chuva, sobre o asfalto espelhado das nossas metrópoles ou em cima de uma faixa de pedestre traiçoeira, o sistema atua de forma cirúrgica. É aquele anjo da guarda que você prefere ter e não usar, do que precisar e não ter.
O novo painel TFT de 5 polegadas, herdado da Transalp 750, é extremamente legível. A visibilidade é perfeita sob sol forte e a conectividade com o Honda RoadSync traz a conveniência que o motociclista moderno exige. Navegação passo a passo e gestão de chamadas agora estão ao alcance do polegar esquerdo, sem distrações desnecessárias.
Rodando na cidade
No uso urbano, a CB500 Hornet é bem apropriada. O ângulo de esterço é generoso, o peso de 188 kg em ordem de marcha desaparece assim que as rodas giram, e a embreagem assistida e deslizante é uma benção para o trânsito pesado – macia como manteiga e impedindo o travamento da roda traseira em reduções severas.
Na estrada, ela mostra sua versatilidade. O consumo, mantendo uma pilotagem consciente, beira os 28 km/l, o que lhe confere uma autonomia respeitável para viagens de fim de semana. Se for inconsciente, vai cair para 23 ou 24 km/l. É claro, a proteção aerodinâmica é inexistente, como em toda boa naked, mas o conforto do assento e a posição das pedaleiras permitem horas de pilotagem sem a fadiga típica de motos mais esportivas.
Conclusão: a Hornet de uma nova era
A Honda CB500 Hornet não veio para substituir a 600 de quatro cilindros no coração dos nostálgicos. Ela veio para criar sua própria história. É a moto de quem subiu das 250-300cc e quer um equipamento que não o intimide, mas que também não o entedie em seis meses. É também a escolha lógica do motociclista experiente que se cansou do peso e do calor das 1000cc e busca a essência: a liberdade com eficiência.
Ela é equilibrada, tecnológica e, sim, tem o espírito Hornet na agilidade com que devora o asfalto. A Honda não deu apenas um nome novo a uma moto tradicional. Ela refinou um produto maduro para garantir que a sigla CB continuasse sendo a referência de racionalidade, com algumas pitadas de emoção. Repito: o que essa suspensão dianteira faz, nenhuma outra média é capaz.
Se você entende que um conjunto bem equilibrado e a capacidade de ser média em tudo tem um peso maior do que detalhes isolados, como design agressivo e motor “canhão”, a CB500 Hornet é, hoje, por R$ 43.040 (sem frete), a compra mais inteligente do segmento.