02/03/2026 13:00
Texto e fotos: Edu Pincigher
Houve um tempo em que as motocicletas não precisavam de apêndices aerodinâmicos, mapas de potência complexos ou carenagens esculpidas em túneis de vento para se firmarem no mercado. Bastava um tanque de linhas fluidas, preferencialmente em forma de gota, um farol circular, o quadro de instrumentos com dois volumes bem definidos, uma rabeta curta, o motorzão totalmente desnudado e a promessa de que o vento no rosto seria o melhor psicólogo disponível.
A Kawasaki é mestre em ler seu próprio passado. Mas o que é melhor: ela se inspira, mas não fica presa a ele. Ela busca a referência e mescla com tecnologia atual. Com a Z650RS, ela parece ter encontrado o "ponto G" dessa combinação entre nostalgia e modernidade. Se você tem a minha faixa etária, e se apaixonou pelo motociclismo nos anos 80, essa moto vai te proporcionar recordações incríveis. Se você é mais jovem, acredite: ela não te trará referência alguma, mas você vai se apaixonar por ela do mesmo jeito...
Se a irmã maior, a Z900RS, é uma ode à brutalidade clássica dos anos 70, com seus 4 cilindros que berram vigorosamente em alta rotação, a 650 é a tradução da elegância urbana, da racionalidade, da sensação do “será que eu realmente preciso mais do que isso?” É aquela moto que você estaciona na vaga de garagem do seu prédio e, inevitavelmente, olha para trás pelo menos uma vez antes de pegar o elevador – eu olhei três.
Design retrô
O design é, sem dúvida, o cartão de visitas da 650RS. Esqueça o visual “Sugomi” agressivo da linha Z moderna. Aqui, a Kawasaki resgatou a silhueta da icônica Z650 de 1977. O tanque em formato de gota se integra perfeitamente ao banco plano, terminando na famosa “cauda de pato” (ducktail) que abriga a lanterna de LED, mantendo a silhueta ovalada de todo o conjunto.
O painel é um deleite para os puristas. Dois relógios analógicos simétricos dispõem-se em volta de uma pequena tela LCD central. É a união do útil ao agradável: você tem a leitura clássica de rotação e velocidade por ponteiros (que é muito mais comunicativo com quem aprendeu a andar de moto nos anos 80), com a conveniência do marcador de combustível, temperatura de motor e marcha engatada no centro. A unidade testada, no clássico preto com rodas douradas, é um acinte de bom gosto.
Ergonomia e ciclística
Ao subir na 650, a primeira surpresa é a leveza. São 187 kg em ordem de marcha – mais ou menos o que pesava a Honda CB400 1982 do meu pai. Para quem está acostumado com as retrôs pesadonas, a Z650RS parece uma street. O guidão é alto e largo, proporcionando uma postura ereta e relaxada. Você não “ataca” a curva, mas apenas flui por ela.
O chassi de treliça, derivado da linha esportiva, é estreito entre as pernas, o que facilita a vida de pilotos de menor estatura e garante uma agilidade absurda no corredor urbano. A suspensão dianteira é convencional (garfo telescópico de 41mm), sem ajustes, enquanto a traseira conta com o sistema Back-link horizontal com ajuste de pré-carga. Nos remendos do asfalto urbano, ela assimila os pequenos solavancos com dignidade. É uma moto mais confortável do que se espera para a categoria.
Velho conhecido
Debaixo do visual vintage, bate o (re)conhecido motor de dois cilindros paralelos e 649 cc, também usados por Versys, Vulcan, Ninja 650 e Z650 (naked). Mas não se engane pela familiaridade. A Kawasaki retrabalhou a entrega de torque para privilegiar as baixas e médias rotações. São 68 cv a 8.000 rpm e um torque de 6,5 kgfm.
Não é uma moto para despejar “final”, que renda números astronômicos em um trfack-day. É uma moto para usar no dia a dia e pegar estradas, funções essas que ela executa com notável competência. As arrancadas são vigorosas e a retomadas em sexta marcha, para realizar uma ultrapassagem em rodovias, por exemplo, são imediatas. O câmbio, como é de praxe na marca, é uma joia: engates curtos, precisos e auxiliado por uma embreagem assistida e deslizante que faz o acionamento bem macio.
O ronco? Bem, o escape 2-em-1 sob o motor é discreto. Para quem busca aquela sinfonia dos quatro cilindros da década de 70, talvez sinta falta de uma nota mais grave. Mas, no uso diário, a discrição é uma aliada da civilidade.
Dinâmica: menos é mais
Na estrada, a Z650RS mostra que o equilíbrio é sua maior virtude. Ela entra nas curvas com uma naturalidade que beira a intuição. Os freios, com pinças Nissin e discos duplos na frente, são mais do que suficientes para o peso do conjunto, oferecendo a “primeira mordida” bem progressiva, sem sustos para o piloto menos experiente.
A posição de pilotagem nem sugere uma tocada mais esportiva ou agressiva. Ela foi concebida para você passear, ainda que a performance proporcionada pelas suspensões e pelos ótimos pneus Dunlop Sportmax (120/70 na frente e 160/60 atrás, ambos aro 17) seja bem convincente. Pode pendular: ela obedece.
O consumo médio durante nosso teste ficou na casa dos 20 km/l, o que, com um tanque de 12 litros, garante uma autonomia aceitável para a proposta da moto. Ela não nasceu para cruzar o continente, mas para transformar o trajeto entre o escritório e o café de domingo em um evento especial.
Veredito
A Kawasaki Z650RS não tenta ser a mais rápida, nem a mais tecnológica da categoria. Ela escolhe o caminho da sensação. É uma moto que atende ao motociclista que quer apenas desfrutar de uma engenharia atualizada e confiável permeada por um design atemporal. É a moto que tem cara de moto.
Confesso que iniciei essa avaliação com a sensação de que a Z650RS era somente uma alternativa mais em conta (R$ 50.090 + frete) a quem não podia alcançar o Z900RS, que custa quase R$ 70 mil. Mas o uso diário na cidade e na estrada, durante alguns dias, me fez rever essa conclusão.
Até acho que ela continua sendo essa moto, isto é, uma solução mais barata para a 900. Só que a personalidade mais adequada ao uso urbano, o desempenho convincente e a tecnologia embarcada revelam um produto final com muita autenticidade. E com um design que, vou te contar, desperta as melhores memórias possíveis para quem gosta de motocicletas. Às vezes, olhar para trás é a melhor maneira de seguir em frente.