AVALIAÇÃO: Moto Morini Calibro 700

Com 69 cv, porte compacto e preço competitivo, a Calibro foge do comportamento tradicional das customs e surge como interessante alternativa à Kawasaki Vulcan S

10/08/2026 11:08

Texto e fotos: Edu Pincigher

A Moto Morini Calibro 700 tem desenho com inspiração claramente americana, carrega no tanque uma marca fundada na Itália, utiliza um motor cuja árvore genealógica passa pela China e tem uma curiosa proximidade técnica com uma conhecida mecânica japonesa. Para completar, chega ao consumidor brasileiro dentro da nova operação nacional da Moto Morini. Confuso?

Só que, depois de andar com ela, descobri que essa salada de nacionalidades funciona muito melhor do que sugere o enunciado.

A Calibro é uma interpretação diferente do universo custom. E talvez esteja justamente aí sua principal virtude. Ela não tenta reproduzir integralmente aquela fórmula tradicional de moto pesada, motor de baixa rotação, ciclística preguiçosa e vocação quase exclusiva para acelerar em retas. Pelo contrário. Ela parece ter sido feita por alguém que gosta de custom, mas também gosta de fazer curvas.

Uma custom que funciona na cidade

A comparação inevitável é com a Kawasaki Vulcan S 650. Não apenas pelo estilo, mas principalmente pela arquitetura mecânica. Ambas abandonam o tradicional V2 associado ao segmento e utilizam motores bicilíndricos paralelos refrigerados a líquido.

Mas há diferenças importantes. A Calibro mede 2.220 mm de comprimento e tem 1.490 mm de entre-eixos. A Vulcan S chega a 2.310 mm e 1.575 mm, respectivamente. Ou seja: a Morini é 90 mm mais curta e tem distância entre-eixos 85 mm menor. A ficha europeia da Calibro informa 200 kg a seco, enquanto a Kawasaki declara 215 kg. Na prática, porém, a sensação é inequívoca: a Calibro parece compacta. E isso muda bastante a experiência urbana.

O guidão largo oferece boa alavanca, a moto responde rapidamente às mudanças de direção e aquela sensação de estar administrando um transatlântico em baixa velocidade simplesmente não existe. Continua sendo uma custom, claro. Mas é uma custom surpreendentemente amigável no trânsito.

O banco está a apenas 725 mm, facilitando a vida nas manobras. Para pilotos mais baixos, então, é um convite. Curiosamente, a Vulcan consegue ser ainda mais baixa, com assento a 705 mm. A diferença está no conjunto: a menor distância entre-eixos da Morini ajuda a deixá-la mais esperta quando a rua começa a apertar.

E o motor?

Aqui começa a parte divertida. São 693 cm³, dois cilindros paralelos, duplo comando no cabeçote, oito válvulas, refrigeração líquida e injeção Bosch. O conjunto entrega 69 cv a 8.500 rpm e 6,9 kgf.m de torque a 6.500 rpm. A transmissão tem seis marchas e a força chega à roda traseira por correia — solução coerente com a proposta custom, silenciosa e de baixa manutenção. A velocidade máxima declarada é de 175 km/h.

Mas esqueça os números por alguns segundos. O mais interessante é como essa potência aparece. A Calibro não tem aquele comportamento clássico de uma custom de grande cilindrada, que despeja torque cedo e praticamente pede para você trocar de marcha. Aqui acontece justamente o contrário.

Esse motor gosta de altas rotações. A potência máxima aparece a 8.500 rpm. Portanto, quando você resolve esticar as marchas, descobre uma personalidade quase esportiva escondida dentro daquela roupa de cruiser. Gostei disso. Na estrada, principalmente durante ultrapassagens, os 69 cv fazem diferença. Para efeito de comparação, o bicilíndrico de 649 cm³ da Vulcan S entrega 61 cv a 7.500 rpm e 6,4 kgfm a 6.600 rpm.

Isso não transforma a Calibro numa superbike fantasiada de custom. Longe disso. Mas oferece uma reserva de desempenho muito interessante para quem não aceita que pilotar uma cruiser necessariamente signifique andar devagar.

E que história é essa de que o motor é Kawasaki?

Essa história merece uma explicação. O bicilíndrico Kawasaki de 649 cm³ utiliza diâmetro e curso de 83 x 60 mm, configuração DOHC e dois cilindros paralelos. É a conhecida arquitetura que equipa diferentes modelos da fabricante japonesa. A própria Vulcan S continua utilizando exatamente essas medidas. Ele nasceu em 2006.

Anos depois, a chinesa CFMOTO passou a produzir seu próprio bicilíndrico de 649 cm³ com arquitetura e dimensões extremamente semelhantes. Daí nasceu uma história repetida durante anos na internet: a de que seria um motor Kawasaki fabricado sob licença.

A questão é que nunca houve confirmação oficial da Kawasaki que sustente essa afirmação. Ao contrário: eu consultei a marca no Brasil e essa “parceria” foi prontamente negada. A história da Moto Morini ajuda a entender o restante. A tradicional fabricante italiana, fundada em 1937, passou ao controle do grupo chinês Zhongneng em outubro de 2018. A nova fase deu origem, entre outros produtos, à X-Cape 650 e posteriormente à família Seiemmezzo.

Na Calibro, a cilindrada cresceu para 693 cm³. Curiosamente, o diâmetro permaneceu em 83 mm, enquanto o curso passou para 64 mm. Portanto, existe parentesco conceitual e dimensional nessa história. Mas parentesco é diferente de identidade.

Capricho acima da expectativa

Outro aspecto que me chamou atenção foi o acabamento. Há detalhes interessantes espalhados por toda a moto: a moldura ao redor do radiador, por exemplo, transforma uma necessidade técnica normalmente pouco elegante em elemento de design. As laterais têm materiais e encaixes convincentes, o tanque metálico tem boa presença e o escapamento acompanha muito bem as linhas da moto. Há iluminação full LED, entrada USB, rodas de liga leve sem câmara, ABS Bosch e suspensão dianteira invertida.

Visualmente, é uma moto que parece mais cara do que efetivamente custa. Minha única ressalva está no quadro de instrumentos, que mescla um conta giros analógico a um pequeno display digital. Funciona, combina até certo ponto com a proposta retrô, mas parece simples demais perto do restante da motocicleta. É aquele componente que entrega a idade do projeto diante de concorrentes que rapidamente adotaram telas TFT coloridas.

Uma lacuna interessante do mercado

E finalmente chegamos ao ponto que talvez torne a Calibro realmente relevante no Brasil: preço e posicionamento. A Moto Morini anuncia a Calibro por R$ 44.900 – a versão Bagger, equipada com malas laterais e para-brisa, chega a R$ 47.900.

Enquanto isso, a Kawasaki anuncia atualmente a Vulcan S por R$ 52.150 (ou R$ 56.490 na versão S Café). E aí a conversa muda. Existe uma lacuna interessante no mercado brasileiro entre as customs intermediárias de menor desempenho (falo aqui da linha Royal Enfield 650, na faixa de R$ 34 mil a R$ 37 mil) e motocicletas de marcas premium, como a Harley, que rapidamente atravessam a barreira dos seis dígitos.

Durante muito tempo, quem procurava uma custom moderna, relativamente leve, com desempenho mais forte e preço ainda razoável tinha pouquíssimas alternativas. A Vulcan praticamente reinava sozinha nesse território. Agora não reina mais. A Calibro oferece 69 cv, ciclística surpreendentemente ágil, bom acabamento e uma personalidade mecânica que foge completamente do estereótipo da custom preguiçosa.

É melhor que a Kawasaki?

Não acho que a pergunta seja essa. A Vulcan traz consigo uma marca consolidada no Brasil, uma rede estabelecida e uma reputação construída durante décadas. A Moto Morini ainda precisa construir história no país, trabalhando pós-venda, disponibilidade de peças, expansão da rede e valor de revenda. Afinal, comprar uma marca recém-chegada envolve uma parcela de aposta.

Mas produto por produto? A Calibro 700 merece ser levada a sério. Talvez essa seja a maior surpresa dessa moto de identidade tão difícil de explicar. Italiana de nascimento, feita na China, com mecânica que desperta comparações com japonesas e uma estética que olha descaradamente para as norte-americanas. No papel, parece uma enorme confusão. Depois de pilotar, faz todo sentido.

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