05/02/2026 12:03
Estava bastante curioso para testar a Royal Enfield Himalayan 450. Sempre acredito que uma motocicleta nunca é apenas a soma de metais, borracha, cabos e códigos eletrônicos. Ela é um símbolo de liberdade, que edifica algo mais complexo do que borracha, metais e plásticos misturados. E convém gastar um pouco de verbo antes de entrar na avaliação em si dessa moto.
Nos processos de definição de produtos, quando a marca está escolhendo o design final, engenheiros e designers criam alternativas, marqueteiros palpitam e a decisão final de como será o produto é tomada por “clínicas”, onde clientes da marca (ou da concorrência) avaliam as opções e votam no pacote final. Você pode ter desenhos diferentes de tanques, por exemplo. Ofertar alguns acessórios.
Diferentemente do que as pessoas pensam, uma moto não é um conjunto de equipamentos que tem seus custos somados, mais margem e se chega ao preço final. É o contrário! Você (a montadora) define o preço final e depois vai avaliar quais os recursos e os acessórios que vão “caber” naquele valor!
No cômputo final, o fabricante anota as opiniões do que os clientes mais gostaram e, principalmente, descarta as opções do que eles mais rejeitaram. É como nas eleições para cargos majoritários: muitas vezes, o candidato eleito não é o que mais agrada. Mas sim o que tem a menor rejeição.
E toda essa introdução serve para explicar o porquê de você ter a sensação de que todas as motos estão cada vez mais parecidas, independentemente da marca e da nacionalidade da montadora. As motos têm sempre a mesma cara! Claro! A partir do momento em que essas clínicas sumarizam os gostos e as rejeições da maioria dos clientes, o resultado é previsível.
E isso não está errado. O objetivo de uma empresa é criar um produto que seja acalentado pela grande maioria dos consumidores e que sofra a menor rejeição possível! Se você olhar uma Honda Transalp de longe, ela não é muito diferente de uma Yamaha Ténéré. De longe! Ou de uma Kawasaki Versys.
A Royal Enfield age diferente
Aqui entra a Himalayan. Ela é, sim, diferente de tudo. E claramente tem uma proposta estilística que foi escolhida sem se importar se a maioria dos clientes iria gostar ou não. Ela é o que é. E é diferente.
Poucas marcas adotam esse conceito “raiz”, quase artesanal, como a Royal Enfield. O resultado é que você bate o olho nessa 450 e logo exclama, sem rodeios: “Adorei esse estilo”. Ou “nossa, que coisa mais feia!” Ela não tem meio termo, como as demais. Mas ela tem, e muito, é PERSONALIDADE.
E essa autenticidade de ser uma maxtrail única, com o jeitão dela, logo se repete na experiência ao guidão. A nova Himalayan 450 deixa muito claro logo nos primeiros quilômetros: esqueça praticamente tudo o que você conhecia da antiga versão de 411cc. A evolução aqui não foi superficial. Foi estrutural, profunda, quase uma reinvenção. Se fosse possível colocar um motociclista nessa moto com os olhos vendados e o fizesse pilotar a moto... ele logo diria: “isso aqui é uma Himalayan!”
E este, amigo, é o segundo principal motivo que faz com que essa trail, mesmo pertencendo a uma marca que possui somente pouco mais de 40 concessionárias em todo o país, seja capaz de vender tanto. Claro que há formas e formas de avaliar seu posicionamento. Se você olhar pra cima, ela dá um banho. A Himalayan teve 6,7 mil unidades vendidas em 2025 contra 3,2 mil unidades da Honda NX500. Se olhar um pouco para baixo... a Honda XRE300 Tornado emplacou 43,7 mil unidades.
Personalidade é tudo. Aliás, quase tudo: o principal motivo que faz da Himalayan um estrondoso sucesso... é o preço: ela custa R$ 30 mil. A NX500 sai por R$ 46 mil. E a Tornado, R$ 30,8 mil.
O novo motor
O ponto de partida dessa virada está no motor Sherpa 450, um projeto totalmente novo e simbólico por si só. Pela primeira vez em sua história recente, a Royal Enfield aposta em um monocilíndrico arrefecido a líquido, com duplo comando de válvulas no cabeçote (DOHC) e quatro válvulas. São cerca de 40 cv a 8.000 rpm e 4 kgfm a 5.500 rpm de torque disponíveis já em médias rotações, o que muda completamente o comportamento dinâmico da moto.
Se antes a Himalayan pedia planejamento para ultrapassar, agora ela responde com vigor e segurança, mesmo carregada ou enfrentando aclives mais longos. A entrega é progressiva, sem trancos, e o conjunto trabalha com um nível de suavidade que praticamente elimina as vibrações excessivas em médias rotações que marcavam a geração anterior.
Quando você está numa estrada a 120 km/h, o conta giros acusa 6.000 rpm, pouco acima da faixa de torque máximo. Você quer ultrapassar alguém e dá motor, ela simplesmente obedece. A 7.000 rpm, ela está a 130 km/h. No regime de potência máxima, já próximo da “final”, o velocímetro estará acusando algo como 145 km/h. Ninguém vai (ou deveria) andar acima disso, certo? Pois o importante é isso: em rodovias de altas velocidades, ela sempre acompanhará bem o “tráfego” e terá a exata reserva de potência para fazer uma ultrapassagem. Claro que, por ter só um cilindro, você mal enxergará o retrovisor acima de 140 km/h de tanto que ela vai vibrar, mas, retornando a 120 km/h, ele fica nítido novamente.
Essa nova personalidade do motor conversa diretamente com o câmbio de seis marchas, agora mais preciso e bem escalonado, além da embreagem assistida e deslizante, que reduz o esforço no manete e traz mais controle em reduções mais agressivas — especialmente úteis em descidas de serra ou em trechos de terra mais técnicos. O resultado é uma moto mais amigável, mas também mais competente quando exigida.
Se o motor representa a alma dessa nova Himalayan, a ciclística é o corpo que sustenta essa transformação. O chassi redesenhado ganhou maior rigidez torcional, contribuindo para uma sensação de estabilidade muito mais refinada em altas velocidades. Na dianteira, a suspensão invertida Showa — com generoso curso — é um dos grandes destaques técnicos. Na traseira, o monoamortecedor com ajuste de pré-carga complementa bem o conjunto, garantindo equilíbrio mesmo com garupa ou bagagem.
E então vem a pergunta inevitável: vale o investimento? Com preços a partir de R$ 29.990, a Himalayan 450 entra de frente em um território disputado. Mas aqui existe algo difícil de quantificar em ficha técnica. A Himalayan 450 entrega caráter.
Se você procura uma motocicleta com personalidade, capaz de enfrentar o trânsito da segunda-feira e, no sábado seguinte, apontar a roda dianteira para o topo de uma serra sem pedir licença, a nova Himalayan 450 é uma excelente alternativa. Os números de vendas não mentem.