16/03/2026 12:03
Texto e fotos: Edu Pincigher
No jornalismo motociclístico, aprendemos cedo que uma moto raramente é apenas um amontoado de aço, ferro e borracha. Ela é, antes de tudo, uma intenção. Quando a SYM NH190 aponta sua carenagem para a base da pirâmide do mercado brasileiro, ela não está apenas preenchendo uma lacuna. Ela está criando um manifesto de pragmatismo para uma legião de milhões de brasileiros que adquirem motos de baixa cilindrada e que cansaram de Honda e Yamaha. Tão simples como isso.
Vou explicar melhor, destacando desde já que Haojue e Bajaj participam exatamente desse mesmo filão ocupado pela Dafra. Esse segmento abaixo de 200cc é dominado, desde mil, novecentos e preto e branco, pelas duas japonesas. Sem exceções, os modelos ofertados pelas duas gigantes são inevitavelmente dotados de motores refrigerados a ar e câmbios de 5 marchas.
Se você pensar na usabilidade, essas motos urbanas são as que rodam as maiores quilometragens médias, não? Ou são adquiridas por motofretistas ou por consumidores que as usam no dia a dia, para irem ao trabalho ou à escola. Rodam pra valer. Nada a ver com modelos comprados por clientes que darão somente seu rolezinho no final de semana. Pois meu ponto é o seguinte: quem usa mais a moto não mereceria a sexta marcha e um motor arrefecido a líquido?
A resposta pode ser SYM. Ela tem exatamente esses dois recursos.
O visual é legal, apesar do escape
Mistura acertada do DNA taiwanês da SYM e da assinatura brasileiríssima da Dafra, a NH190 é forte candidata a atender esse cliente. O primeiro contato visual com a NH190 é um exercício de percepção. O design segue rigorosamente a cartilha das mini-adventures. Há uma agressividade contida nas linhas angulosas que convergem para um conjunto ótico em LED de desenho verticalizado, conferindo-lhe uma identidade moderna, quase robótica.
O para lama alto e a pequena bolha que protege o quadro de instrumentos não são meros adereços. Eles compõem uma silhueta que engana o olhar desatento. A NH190 ostenta um volume de tanque e carenagens laterais que sugerem a musculatura de uma 300cc. Para o motociclista que busca uma presença visual que imponha respeito no retrovisor dos carros, o “dever de casa” do design foi feito com louvor.
O pecado estético surge no desenho do cano de descarga, que fica pendurado por baixo do motor e termina em uma ponteira bem convencional, apontado para o alto, alinhado ao miolo da roda traseira. Você não vai se incomodar com isso, a não ser que passe ao seu lado uma Honda XRE190, que acondiciona seu escape naquele espaço justinho entre o assento e a roda traseira, mais no alto. É bem mais moderno e bonito. A SYM fica devendo esse “encaixe”.
A ergonomia como estratégia
Ao montar na NH, a posição é naturalmente ereta. O guidão largo e posicionado em uma altura estratégica funciona como uma alavanca de precisão. No trânsito travado, onde cada centímetro de manobra conta, essa alavanca permite serpentear entre os carros com uma agilidade que desmente o porte da moto.
O assento em dois níveis é generoso. Ele acolhe o piloto em uma concavidade que transmite segurança, enquanto o garupa não é tratado como um passageiro de segunda classe. A altura do solo é o ponto de equilíbrio: alta o suficiente para transpor buracos com a dignidade de uma autêntica trail, mas amigável para quem não tem a estatura de um piloto de rali. Essa visibilidade privilegiada é o maior ativo de segurança ativa que uma moto urbana pode oferecer.
O motor e o câmbio
Debaixo da carcaça plástica, encontramos um motor monocilíndrico de 183 cc, refrigerado a líquido, capaz de entregar 18 cv a 8.500 rpm e 1,6 kgfm a 7.500 rpm. Aqui, o texto abandona a poesia e abraça a engenharia: não espere um desempenho que vá arrepiar os pelos do braço em uma aceleração de semáforo. A NH190 não nasceu para a pista, nasceu para a elasticidade. E as rotações próximas de torque e potência indicam que você não deverá ter preguiça de “cambiar”. Não espere aquele motor torcudo. Não é o caso. Tem que trabalhar o pé esquerdo o tempo todo. Se isso incomoda? Depende do gosto do motociclista. Eu não me importo.
Na prática, isso significa um motor que conversa o tempo todo com o piloto. As respostas são progressivas, sem aquele soco de torque que assusta iniciantes, mas com fôlego suficiente para manter a velocidade de cruzeiro em rodovias secundárias sem que o conjunto pareça estar trabalhando no limite do estresse mecânico.
O câmbio de seis marchas é um aliado silencioso: as relações curtas nas primeiras marchas garantem a esperteza nas arrancadas, enquanto a sexta funciona como um overdrive. Tanto que ela atinge velocidade máxima (pouco acima dos 120 km/h) em quinta. Você só engrena a sexta para o conforto e a economia de combustível. Outro ponto favorável é a pequena incidência de vibrações, principalmente por se tratar de um monocilíndrico.
E não é que dá pra pegar uma terrinha?
A ciclística da NH190 é onde a narrativa ganha contornos de aventura. O quadro em berço de aço é a solução clássica para a robustez. Na dianteira, o garfo telescópico tem curso suficiente para ignorar as "cicatrizes" do asfalto brasileiro. Dá pra dizer que ela é bastante agradável na buraqueira das grandes cidades. Na traseira, o monoamortecedor cumpre o papel de manter a roda colada ao chão e você não se sente aqueles “coices” típicos das “bi”.
Embora não seja uma moto de trilha pura, ela permite encarar alguns desafios, sim. Enfrentar um trecho de terra batida para chegar àquela pousada escondida ou cortar caminho por uma estrada rural são tarefas feitas com uma tranquilidade que as motos estritamente urbanas desconhecem. A roda dianteira de 19 polegadas é a protagonista aqui, engolindo valetas e imperfeições que sacodiriam uma street inteira. Os pneus de uso misto são o toque final, oferecendo tração onde o asfalto termina e a diversão começa.
Segurança, simplicidade e veredito
No departamento de frenagem, a SYM não economizou no essencial. Discos em ambas as rodas e sistema ABS de dois canais. No asfalto molhado, aquela frenagem de emergência comum no dia a dia torna-se um evento controlado, sem o drama do travamento. Já na terra, melhor ser mais prudente, já que o ABS não pode ser desligado.
O painel digital fecha o pacote com um ar de modernidade funcional. É claro, legível sob sol forte e oferece o que o piloto precisa saber, sem o excesso de informação que mais confunde do que ajuda. A única coisa “estranha” é que o indicador de marchas não possui o ponto morto. Ao contrário disso, você vê uma luz de advertência verde, com um “N”, quando desengata a moto, e ele fica fora da tela. Poderia estar no mesmo local.
No final do dia, a SYM NH190 revela-se um produto honesto e que atende àquele cliente descrito lá no início do texto, ou seja, que enjoou de Honda e Yamaha e quer adotar um produto mais versátil para uso diário e que permita algumas aventuras nos finais de semana. Ela não tenta ser a mais tecnológica do mundo, nem a mais veloz. Em um mercado cada vez mais saturado de promessas luxuosas e preços proibitivos, a NH190 é um sopro de pé no chão – o preço público é de R$ 19.990, com frete incluso. Está na mesma “balada” de Honda CG e Yamaha Factor.