23/02/2026 17:39
Texto e fotos: Edu Pincigher
Quando você olha para o segmento de entrada das nakeds, as concorrentes estão ali na faixa dos 400 a 450cc. Bajaj Dominar NS400Z, Royal Enfield Guerrilla 450 e Triumph Speed 400 são as principais personagens desse portão de acesso ao mundo das nakeds. A bem da verdade, a Yamaha MT-03 fica bem na beira do alambrado, só assistindo a briga. Com motor de 321 cc, ligeiramente menor que as concorrentes, ela compensa no temperamento forte: despeja 41,3 cv de potência (mais do que todas as outras) e orbita a faixa dos R$ 35.734, já com o frete incluso (também mais cara do que todas as outras), que se mantém na faixa dos R$ 30 mil.
Se você bate o olho à primeira vista, a reação é que a MT-03 está "fora do preço" em relação às outras. Mas, como diz aquele velho ditado, "o mercado é soberano". E o mercado mostra que ela disputa palmo a palmo a liderança do segmento com a Bajaj Dominar 400. Foram 10.703 unidades vendidas em 2025 da Dominar contra 9.517 MT-03 emplacadas. Não dá para deixá-la à margem, portanto.
Nos dias em que usei essa moto em São Paulo, rodando pelo trânsito e pegando uma estradinha no final de semana, eu entendi os porquês. A MT-03 pode até ser mais cara, sim. Mas ela tem algo que as outras, em sua maioria, não têm: o peso da marca Yamaha. Todo mundo conhece a Yamaha. A rede de concessionários é capilarizada, espalhada em municípios que, com o perdão da sinceridade, talvez nunca tenham ouvido falar da Triumph, da Royal Enfield ou da Bajaj. É a força do nome, da tradição. E é por isso que ela vende tanto, mesmo com um preço que, na minha visão inicial, a colocava em desvantagem.
Mas, então, a pergunta que não quer calar: por que a Bajaj, uma marca mais recente no Brasil e com uma rede menor, superou a Yamaha no volume final? A resposta é simples e cirúrgica: nas cidades onde a Dominar tem concessionárias, ela vende muito mais que a MT-03. A ponto de, no cômputo geral do país, virar o jogo. É a eficiência de vendas em pontos estratégicos contra a capilaridade nacional. Um estudo de caso interessante para o mundo do marketing.
Mesmo cara, a MT-03 Vale a Pena?
Essa é a pergunta de R$ 35 mil. E a resposta, meu amigo, é direta: depende. Depende do seu estilo de vida, do seu bolso e, principalmente, do seu jeito de pilotar. A Yamaha MT-03 ocupa um nicho de mercado fascinante. É a porta de entrada para o que a gente chama de "naked esportiva com personalidade". Ela não é só um meio de transporte. É é um convite para o universo da pilotagem.
Uma moto que equilibra, de forma quase mágica, a emoção de um motor que gosta de girar alto com a racionalidade de um pacote técnico que vai além do trivial esperado nessa categoria. Analisar a MT-03 é entender como a Yamaha consegue formar motociclistas, não motoqueiros.
Visualmente, a MT-03 é, na minha modesta opinião, uma das motos mais expressivas de sua faixa de cilindrada. O conceito "Dark Side of Japan" não é só um slogan de marketing; é a alma do projeto. O conjunto ótico dianteiro em LED, com aquele desenho agressivo, confere à moto uma presença quase intimidadora. Você olha de frente e pensa: "Essa aí não tá pra brincadeira".
O tanque é musculoso, os recortes são angulosos, a traseira é curta, típica de uma moto urbana e esportiva. Ela parece maior e mais robusta do que os números na ficha técnica sugerem. É o tipo de moto que você estaciona na esquina e as pessoas param para olhar.
O coração da fera gosta de giros
O motor é a cereja do bolo. Um bicilíndrico de 321 cc, o mesmo que equipa a sua irmã carenada, a R3. É um motorzão, apesar da cilindrada: entrega 41,3 cv de potência a 10.750 rpm e 3,0 kgf.m de torque a 9.000 rpm. São números que se traduzem em acelerações progressivas e uma faixa de utilização ampla.
Na prática, o propulsor é elástico. Tem bom desempenho em médias rotações para o dia a dia na cidade, mas a mágica acontece lá em cima, quando você provoca o acelerador e faz com que ele gire alto. É um conjunto que agrada tanto o piloto iniciante, pela previsibilidade e suavidade, quanto o mais experiente, que gosta de extrair cada cv de potência.
Mas aqui entra um ponto crucial: você precisa gostar de trabalhar com altas rotações se quiser uma tocada esportiva. A MT-03 é o oposto de uma Royal Enfield Guerrilla, por exemplo, que tem torque abundante em baixa e entrega potência máxima a 8.000 rpm. A Yamaha, não. Ela te convida a usar o acelerador, a ir lá em cima no conta giros para sentir os 41,3 cv de potência.
Para dar uma ideia, a 120 km/h em sexta marcha, o motor está girando a 8.000 rpm. Caso precise de uma ultrapassagem rápida, a moto está pronta, pois o torque máximo vem aos 9.000 giros. Ela faz o serviço? Faz, e muito bem. Mas, repito: o prazer está em manter o motor cheio, lá em cima.
O câmbio de seis marchas é preciso, com escalonamento que favorece tanto o trânsito urbano quanto a diversão em estradas sinuosas. É uma moto que cobra uma condução mais agressiva para entregar o prazer máximo na pilotagem.
Ciclística e ergonomia
No chassi, a Yamaha adota uma estrutura tubular em aço, bem dimensionada para a proposta. O grande diferencial, na minha visão, é a suspensão dianteira invertida de 37 mm. Isso não é luxo, é necessidade. Contribui significativamente para a estabilidade e para a leitura do asfalto, especialmente quando insiste na condução esportiva. Na traseira, o monoamortecedor cumpre o seu papel, com um equilíbrio decente entre conforto e firmeza.
Os freios são eficientes e coerentes com o desempenho da moto. Disco dianteiro de 298 mm, pinça de dois pistões; disco traseiro de 220 mm. Tudo assistido por um ABS de série que garante frenagens seguras e progressivas. Não há esportividade extrema nos freios, mas sim a confiança que o piloto precisa no dia a dia e na estrada.
Ergonomicamente, porém, a MT-03 me ganhou. Apresenta uma posição de pilotagem levemente inclinada para frente, guidão largo e pedaleiras relativamente altas. O resultado é uma postura que favorece o controle e a agilidade no trânsito, sem quebrar as costas em trajetos mais longos. O banco, a 780 mm do solo, é uma benção para pilotos de baixa estatura. É o meu caso. Sentei na moto, estiquei os braços e tive a sensação de que a Yamaha usou um alfaiate para me vestir. Ficou perfeita para o meu tipo físico. Isso não significa que pilotos mais altos não se acomodem, mas os baixinhos agradecem.
O painel é digital, simples, mas funcional. Boa leitura, informações essenciais bem organizadas. Sem excessos tecnológicos, sem firulas. A MT-03 aposta na experiência de pilotagem pura, não em um computador de bordo cheio de luzinhas piscando. No uso urbano, ela é ágil, com bom raio de esterço. O peso em ordem de marcha, pouco acima dos 168 kg, contribui para essa sensação de leveza e facilidade de condução.
Em síntese, a Yamaha MT-03 é uma naked que cumpre com louvor o papel de introduzir o motociclista ao universo das médias cilindradas, sem concessões excessivas. É uma moto com identidade forte, motor envolvente e ciclística bem resolvida. Ela privilegia o prazer de pilotar acima de números frios ou modismos. Mais do que uma simples opção racional de compra, a MT-03 é uma escolha emocionalmente coerente. E isso, em um segmento tão disputado e com a concorrência acirrada que vimos, faz toda a diferença do mundo. É uma moto para quem gosta de pilotar, e ponto final.