Ducati cria o Collezione 100 para celebrar centenário

A ideia foi tão brilhante como ousada: a marca italiana selecionou 10 modelos históricos e fará uma produção limitada e numerada de modelos novos para homenagear as clássicas

29/05/2026 12:05

A Ducati escolheu Mugello, um dos cenários mais emblemáticos da sua trajetória nas pistas, para apresentar ao mundo um dos projetos mais sofisticados e emocionalmente relevantes da sua história recente. A marca de Borgo Panigale revelou oficialmente a Collezione 100, uma série especial criada para celebrar os 100 anos da fabricante italiana por meio de dez motocicletas exclusivas, produzidas em séries numeradas limitadas a apenas 100 unidades cada.

Mais do que uma coleção comemorativa, a iniciativa transforma a própria história da Ducati em objeto de culto contemporâneo. Cada modelo nasce inspirado em uma motocicleta que ajudou a construir a identidade da marca ao longo de um século, reinterpretando momentos decisivos da sua evolução técnica, esportiva e cultural através de projetos que combinam design, engenharia, arte e exclusividade.

A apresentação aconteceu no circuito de Mugello, palco de algumas das vitórias mais marcantes da Ducati na MotoGP e cenário perfeito para um lançamento que mistura passado e futuro com naturalidade. Em vez de um evento convencional, a fabricante transformou a reta principal do autódromo em uma verdadeira vernissage a céu aberto. Obras assinadas pelo artista italiano Ugo Nespolo conduziam os convidados por uma experiência visual até o encontro com as dez motocicletas da coleção.

A escolha de Nespolo não foi casual. Figura importante da arte italiana contemporânea e entusiasta assumido da Ducati, o artista desenvolveu uma interpretação exclusiva para cada modelo da Collezione 100 e também para as motocicletas históricas que serviram de inspiração aos projetos. Cada proprietário receberá duas obras numeradas e assinadas pelo artista, carregando o mesmo número de série da motocicleta adquirida. Um detalhe que reforça o caráter quase museológico da coleção.

Todas as motocicletas compartilham uma base conceitual comum: grafismos históricos reinterpretados, componentes exclusivos, acabamento refinado e uma série de soluções técnicas desenvolvidas especificamente para a coleção. Entre os elementos presentes estão bancos em Alcantara ou couro com logotipo Ducati bordado, placas numeradas em acabamento Centenary Bronze, detalhes usinados em alumínio billet e componentes mecânicos personalizados conforme cada projeto.

A Ducati também decidiu ampliar a experiência além da motocicleta. Cada unidade acompanha cavalete traseiro personalizado, capa exclusiva, certificado de autenticidade e um ritual de ignição especial no painel. Os clientes ainda poderão adquirir capacetes e jaquetas técnicas desenvolvidos nas mesmas cores das motocicletas.

Um dos aspectos mais simbólicos da Collezione 100 está justamente na capacidade da Ducati de revisitar sua própria história sem cair na nostalgia gratuita. Cada modelo não apenas homenageia uma motocicleta histórica, mas também resgata momentos que ajudaram a transformar a marca em uma das fabricantes mais desejadas do mundo.

A Panigale V4 S 100, por exemplo, presta tributo à lendária 750 Imola Desmo de 1972, motocicleta pilotada por Paul Smart e Bruno Spaggiari na histórica vitória nas 200 Milhas de Imola. A conquista marcou um divisor de águas para a Ducati, derrotando nomes como Giacomo Agostini e colocando definitivamente a fabricante italiana no radar mundial da performance esportiva.

O modelo recebe pintura inspirada no icônico prata metálico da época, além de escapamento Akrapovic em titânio e carbono, embreagem seca — solução inédita nos novos motores V2 da marca — e ampla utilização de fibra de carbono nos componentes aerodinâmicos.

A Panigale V2 S 100 mergulha em outro capítulo importante da trajetória esportiva da Ducati ao reinterpretar a 750 Super Sport Desmo utilizada por Franco Uncini no Campeonato Italiano de 1975. O grafismo amarelo combinado ao tom vinho remete diretamente aos modelos esportivos produzidos em Borgo Panigale durante os anos 1970 e reforça a atmosfera clássica do projeto.

Já a Streetfighter V4 S 100 busca inspiração na 900 Sport Desmo Darmah de 1979, motocicleta que representava quase uma Streetfighter antes mesmo do segmento existir oficialmente. O projeto incorpora a estética preta e dourada típica da época e recupera elementos exóticos como a icônica cabeça de tigre aplicada originalmente na Darmah.

A Monster 100 homenageia a Monster S4Rs Tricolore de 2008, considerada uma das últimas grandes expressões da primeira geração da naked que redefiniu o segmento mundialmente. A pintura tricolor reforça a conexão emocional do modelo com a identidade italiana da Ducati e celebra um dos produtos mais importantes da sua história moderna.

No universo cruiser, a XDiavel V4 100 revisita a lendária 750 Super Sport “California Hot Rod”, motocicleta utilizada por Cook Neilson na vitória histórica em Daytona, em 1977. O triunfo teve enorme importância para a Ducati no mercado norte-americano, tornando-se um dos momentos responsáveis por ampliar a popularidade da marca nos Estados Unidos.

A Diavel V4 RS 100 presta homenagem à 900 Replica de 1979, primeira réplica esportiva de rua produzida pela Ducati e um dos modelos mais desejados pelos entusiastas da marca. O tradicional esquema verde, vermelho e branco antecipava aquilo que mais tarde se transformaria em uma assinatura visual da fabricante italiana.

A Multistrada V4 RS 100 mergulha em uma das revoluções técnicas mais importantes da Ducati ao reinterpretar a 500 SL Pantah de 1979, motocicleta que marcou a estreia do motor Pantah e do conceito estrutural que mais tarde daria origem aos famosos treliçados da marca.

No segmento Scrambler, a homenagem recai sobre a primeira Ducati Scrambler de 1962, criada inicialmente para o mercado norte-americano a pedido do importador Joe Berliner. O projeto representa um resgate importante das origens aventureiras da marca fora do ambiente puramente esportivo.

A Hypermotard V2 SP 100 busca referência na Ducati 860 utilizada nas 24 Horas de Montjuïc, corrida de endurance vencida pela fabricante italiana em meados da década de 1970. O modelo reforça a conexão histórica da Ducati com as competições de longa duração e traduz esse DNA em uma motocicleta moderna e extremamente agressiva.

Fechando a coleção, a DesertX 100 resgata talvez uma das histórias mais curiosas da fabricante: a Pantah “Ice” de 1981, motocicleta utilizada em apresentações sobre pistas congeladas nos Alpes italianos. A pintura amarela com detalhes azuis recupera exatamente um dos modelos que fez parte do acervo do Museu Ducati.

Durante o evento, Marc Márquez e Pecco Bagnaia também revelaram uma pintura especial para as Desmosedici GP da equipe Ducati Lenovo Team, criada exclusivamente para o GP da Itália. O layout mistura elementos gráficos das dez motocicletas da Collezione 100, combinando logotipos históricos, padrões geométricos modernos e referências diretas à trajetória centenária da marca.

A celebração dos 100 anos da Ducati também ultrapassa o universo das motocicletas. Empresas parceiras desenvolveram produtos exclusivos inspirados na coleção. A Piquadro revelou uma linha especial de mochilas comemorativas, enquanto a Carrera apresentou uma edição limitada de óculos produzida em apenas 500 unidades.

A próxima aparição pública da Collezione 100 acontecerá durante o World Ducati Week, entre os dias 3 e 5 de julho. Depois disso, as motocicletas seguirão para o Goodwood Festival of Speed, no Reino Unido, antes de retornarem à Itália para integrarem exposições especiais em museus da região de Bolonha.

Com a Collezione 100, a Ducati faz algo raro no universo da indústria: transforma memória em produto sem perder autenticidade. Em vez de apenas celebrar datas, a marca escolheu revisitar os momentos que realmente ajudaram a construir sua identidade. O resultado é uma coleção que não se limita ao motociclismo. É uma síntese da cultura Ducati em sua forma mais sofisticada, emocional e colecionável.

 

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