04/02/2026 12:43
Há motos que nascem produtos. Outras, raras, nascem conceito. A Transalp sempre pertenceu ao segundo grupo. Quando a XL700V desembarcou no Brasil, em 2011, ela não era apenas mais uma trail média no catálogo da Honda — era a materialização de uma filosofia que colocava equilíbrio acima de exageros. Com motor V-Twin de 680cc, ergonomia acolhedora e um design que envelheceu com dignidade, a Transalp pioneira se tornou, com o tempo, uma espécie de segredo bem guardado entre motociclistas experientes. Daqueles que sabem reconhecer qualidade construtiva, suavidade mecânica e versatilidade real quando veem uma.
Ela ficou em linha até 2014, mas jamais saiu do imaginário coletivo. Ainda hoje é lembrada com respeito, quase reverência. Não por números de ficha técnica, mas pela forma como entregava tudo o que prometia — e um pouco mais. Confortável no uso diário, surpreendentemente ágil no trânsito urbano e absolutamente confiável em estradas ruins, a Transalp sempre foi uma moto que fazia sentido. Em qualquer cenário.
E talvez seja exatamente por isso que a nova XL750 Transalp carregue um peso simbólico tão grande. Ressuscitar um nome lendário é um risco. Mas a Honda decidiu enfrentá-lo com a mesma sobriedade que marcou o projeto original. Em vez de nostalgia vazia, a proposta aqui foi reinterpretar a essência da Transalp à luz da engenharia moderna — e o resultado é uma big trail que conversa tanto com o passado quanto com o futuro.
A XL750 Transalp foi concebida para atender dois perfis que, à primeira vista, parecem opostos: o motociclista aventureiro, que busca estradas secundárias, longas viagens e eventuais incursões fora do asfalto, e o usuário urbano que precisa de agilidade, controle e potência utilizável no dia a dia. A chave está no equilíbrio. Como resume Masatoshi Sato, líder do projeto na Honda R&D Japão, a nova Transalp nasceu de uma análise cuidadosa de tudo aquilo que fez o primeiro modelo tão competente — agora reinterpretado em uma visão 360°, capaz de atender motociclistas de todos os níveis de experiência.
Visualmente, a XL750 Transalp transmite exatamente o que promete. O design é limpo, funcional e robusto, com uma clara inspiração na Africa Twin, especialmente no conjunto óptico frontal duplo em LED. Não há exageros estéticos, apenas formas que comunicam propósito. A carenagem frontal foi pensada não apenas para impactar visualmente, mas para trabalhar a favor da aerodinâmica, desviando o fluxo de ar do capacete e reduzindo turbulências em velocidades mais altas. O para-brisa, feito em Durabio™, material sustentável e de alta transparência, reforça essa proposta.
Sob a carenagem está um dos grandes destaques da moto: o novo motor bicilíndrico paralelo de 755cc. Compartilhado com a CB750 Hornet, mas ajustado especificamente para a proposta aventureira da Transalp, ele entrega 69,3 cv de potência e 7,04 kgf.m de torque, com uma curva cheia e utilizável desde baixas rotações. O virabrequim a 270° confere personalidade ao funcionamento, com uma pulsação que remete aos motores em V e um comportamento progressivo, ideal tanto para viagens longas quanto para condução urbana.
A tecnologia embarcada acompanha o pacote. O sistema Throttle By Wire permite seis modos de pilotagem — quatro pré-definidos e dois personalizáveis — que alteram potência, freio-motor, controle de tração e atuação do ABS. É eletrônica aplicada com inteligência, que amplia a versatilidade da moto sem tornar a experiência complexa ou artificial.
A ciclística segue a mesma lógica de equilíbrio. O chassi Diamond em aço, com apenas 18,3 kg, oferece rigidez bem distribuída e contribui para uma pilotagem intuitiva. As suspensões Showa de alta especificação — garfo invertido SFF-CA™ na dianteira e monoamortecedor Pro-Link atrás — garantem conforto em longos deslocamentos e capacidade real fora do asfalto. As rodas raiadas, de 21 polegadas na frente e 18 atrás, calçadas com pneus on-off, deixam claro que a Transalp não é uma aventureira de fachada.
Na prática, a XL750 Transalp se revela uma moto surpreendentemente fácil de conduzir. A posição de pilotagem ereta, o assento a 855 mm do solo — relativamente baixo para a categoria — e o bom controle em baixa velocidade fazem dela uma big trail acessível, mesmo para quem está migrando de modelos menores. O painel TFT de 5 polegadas, personalizável e de excelente visibilidade, completa um conjunto moderno e funcional.
No fim das contas, a nova Transalp honra seu nome não por tentar ser tudo ao mesmo tempo, mas por saber exatamente o que é. Uma moto pensada para rodar longe, enfrentar o imprevisível e, ainda assim, conviver bem com a rotina. Assim como a pioneira de 2011, a XL750 Transalp não grita — ela convence. E isso, no universo das duas rodas, é uma virtude cada vez mais rara.