Quatro Rodas

Roteiro de viagem: Alpes europeus

04/09/2018 12:09

Por José Teiga Júnior

Desta vez, a aventura em duas rodas foi pela região dos Alpes englobando Alemanha, Áustria, Itália, Suíça e França. Região de belíssimas e estonteantes paisagens, estradas maravilhosas e seguras para pilotagem, povos e culturas de alta educação e excelente padrão de qualidade de vida.

A viagem foi realizada com 13 motos, 11 com garupa, entre elas minha parceira Paula que também me ajudou nas fotos e filmagens, além das duas motos dos guias. Um grupo de extrema qualidade em pilotagem, animação, parceria e amizade.

Partimos de Erding, Alemanha, onde recebemos as motos, e nosso roteiro incluía Salzburgo, na Áustria, Cortina d’Ampezzo, na Itália, Maloja, na Suíça, Stressa, na Itália, Chamonix, na França, Freiburg e Füssen, na Alemanha. Ao final, voltamos rodando para Erding. Foram 2.200 km percorridos em nove dias de aventura passando pelos mais espetaculares passos europeus, como Stélvio, Majola, Pordoi, Furka, Resia, Simplon, Bernina, Forclaz, Nochalm Strasse, Tre Croci, Falzarego, Grand San Bernand e por lagos como o Maggiore, Obersee e Chiemsee.

O tempo nos ajudou, limpo na maioria dos dias. Pouco vento e chuva só tivemos no dia em que paramos em Chamonix, o que não atrapalhou a viagem em nada. A temperatura variou quase sempre entre 11°C pela manhã e 20°C à tarde, chegando à 30°C em alguns lugares. Na travessia dos passos, devido à altitude e quantidade de neve que ainda havia, a temperatura chegou a 4°C. 

Houveram muitos pontos altos na viagem. Entre estradas e paisagens sensacionais, quero salientar que, como sonho de motociclista, andar pela região da Floresta Negra e pela estrada B500, famosa por ser a estrada de teste de várias fabricantes de motos, não tem preço. No geral, uma experiência espetacular que recomendo a todos os viajantes de duas rodas, pois conhecer a Europa assim vale e muito. 

Ziguezague pelas montanhas

O primeiro dia serviu para acabar com a ansiedade de andar de moto pelas estradas secundárias da Baviera alemã, passando à beira do lago Chiemsee, local com um castelo de mesmo nome. Após meros 150 km chegamos cedo à Salzburgo, a “fortaleza de sal”, e pudemos aproveitar para caminhar por essa cidade maravilhosa, berço de Mozart. É a quarta maior cidade austríaca e o centro histórico é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1996.

No dia seguinte acordamos cedo para uma bela aventura pelos Alpes! Começamos pelo Passo Grossglokner que, com seus 3.797 m, é considerado um dos mais altos da Europa, abaixo do Mont Blanc francês. O pedágio para essa estrada é caro, mas vale muito conhecer a região do Tirol.

Chegamos relativamente cedo à Cortina d’Ampezzo, cidade onde foi filmado o primeiro filme da Pantera Cor de Rosa com Peter Sellers, situada na região do Vêneto italiano, onde encontram-se as Dolomitas. O lugar é bem aconchegante, de visual espantoso e encantador, mas o ponto forte mesmo é o entorno panorâmico. Olhar para fora da cidade é fantástico e lá nos hospedamos por uma noite.

A viagem para Maloja, na Suíça, seria uma das mais longas no roteiro, 370 km em velocidade moderada. Mas houveram paradas e a primeira foi bem perto ainda de Cortina, onde pudemos ficar aos pés desse lindo complexo das Dolomitas. Após isso, fomos direto para um dos pontos mais altos da viagem, o Passo Stelvio! São mais de 60 curvas, algumas com mais de 180 graus, e o cume fica a 2.757 m de altitude! Considero uma estrada com um bom grau de dificuldade, principalmente com frio, gelo, nebulosidade e garupa. Mesmo sendo muito bem construída, as entradas de curva têm que ser feitas com muita abertura, velocidade reduzida e atenção a veículos na mão oposta. Há muitas bicicletas, motos e carros nessa época. Os ciclistas pedalam forte, acompanham as motos e têm prioridade.

A ida até Maloja foi tranquila, porém encaramos um pouco de trânsito e algumas paradas – mesmo com as estradas em excelentes condições, alguns trechos estavam sob manutenção preventiva. Antes de chegar ao nosso local de descanso, passamos pela famosa cidade de St. Moritz, berço do turismo de inverno e também palco de duas edições das olimpíadas de inverno. No seu lago vimos atividades como o windsurf, kitesurf e remo. Além das famosas águas termais, a cidade também é conhecida pela gastronomia. Dormimos em Sils-Maria, cidade perto de Maloja e local por onde o polêmico filósofo Friedrich Nietzsche passou alguns anos da vida.

No dia seguinte voltamos para a terra da pizza e passamos pelo segundo maior lago que divide Suíça e Itália, o Maggiore. O percurso por suas margens foi sensacional, mesmo pilotando por suas cidades com ruas estreitas e um certo tráfego de veículos. O charme desta região é contagiante e, com certeza, pretendo fazer uma nova aventura por lá com mais calma, de preferência de Vespa.

A chegada à Stressa foi tranquila, já que a cidade é bem pequena. Com aproximadamente 5 mil moradores, tem ponto forte na belíssima rede hoteleira e passeios até as ilhas que ficam no lago.

Imponente Mont Blanc

Dia seguinte, chegamos quase ao meio-dia no Passo Simplon, na Suíça, e estava bem frio. Com os seus 2.005 m de altitude, tem sua importância por ter sido construída no início do século 19 por Napoleão Bonaparte para deslocamento de tropas. Por ser um passo que geralmente fica aberto o ano inteiro, tem tráfego mais acentuado de caminhões. Pegamos mais uma pequena serra com suas estreitas estradas e belas curvas, onde foram feitas as fortificações do Vale do Trient, local onde os suíços resistiram à invasão alemã na guerra. 

Chegamos a Chamonix, França, destino final do dia, e fomos descansar... que nada! Fomos conhecer esta belíssima cidade, sede do famosíssimo Mont Blanc. Certamente é uma das vilas mais famosas dos Alpes. A cidade respira aventura, tanto que muitos dos que comandam a cidade são guias de montanha, esquiadores e alpinistas. Na praça central da cidade há uma estátua de H.B. Saussure com Jacques Balmat apontando para o cume do “monte branco”, onde o naturalista e geólogo suíço (Saussure) costumava fazer experiências. Saussure é considerado por muitos o fundador do alpinismo. O Mont Blanc é a montanha mais alta da França e também da União Europeia, com  4.810 m. Pertence ao Maciço do Monte Branco, uma cadeia de montanhas que divide Itália, Suíça e França. 

Na ida à Freiburg, Alemanha, passamos pelo túnel sob o complexo do Mont Blanc, exatamente abaixo da Aiguille du Midi, a “agulha do meio-dia”, que com 3.842 metros é um dos maiores picos da região e onde estão instaladas antenas de televisão e telecomunicações. Há um teleférico que chega quase ao cume da Aiguille, porém estava sob manutenção no dia. A extensão do túnel Mont Blanc é de 11,6 km, um dos maiores do mundo.

Saímos pelo lado italiano e logo voltamos aos Alpes para atravessar o Passo Grande São Bernardo, local que deu origem à raça de cães São Bernardo depurada pelos monges locais. Importante citar também a presença de um antigo hospício, algo comumente construído em lugares inóspitos pois pensava-se que a doença era transmissível. A temperatura estava congelante, na casa de 4°C, portanto passar por ali não foi fácil.

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Na Floresta Negra 

Depois disso, o foco mudou dos passos para as estradas e então entramos na Floresta Negra alemã. Esse canto da Alemanha é um dos lugares mais belos e misteriosos de todo o país. Não faltam lendas e paisagens naturais incríveis, as casas remetem à nossa imaginação de contos como Branca de Neve e Chapeuzinho Vermelho. A floresta tem esse nome exatamente por ser um complexo de árvores muito próximas, e como chove muito na região, pouca luz chega ao solo.

Foi sensacional andar pela floresta, mas tinha mais por vir... a B500! Estrada mais famosa do motociclismo alemão e mundial. O pavimento tem condições soberbas e perfeita geometria, sim, perfeita mesmo, pois pode-se andar sem diminuir a velocidade nas curvas, foi aí que entendi porque é a estrada de testes para vários fabricantes de motos. 

Continuamos pelas belíssimas estradas alemãs, na Rota Romântica, mas já com foco de levar as “crianças” para casa. Andar nestas excelentes vias permite ao motociclista aliviar um pouco da atenção com irregularidades na pista, pois não encontramos nenhuma, e apreciar confortavelmente a paisagem. Continuamos seguindo em direção ao Obersee, um lago cristalino cercado pelos alpes, bom lugar para tirar fotos sensacionais. 

A chegada à Füssen, cidadela de arquitetura medieval e pinturas decorativas nas fachadas, deu mais um toque romântico ao dia. Era hora de voltar à Erding, o que ocorreu em tom triste de despedida, mas, antes fizemos um belíssimo tour no que considero um dos mais famosos palácios do mundo, o castelo de Neuschwanstein.

Ainda antes da chegada, tivemos a cereja do bolo. Andar pela Autobahn e poder acelerar a moto sem medo de ser multado. Realmente uma sensação especial. Muitos já atingiram uma velocidade elevada, mas mantê-la por muitos quilômetros é para poucos. Sempre no seu limite, OK? A chegada à Erding foi muito celebrada pelo grupo, tudo deu certo e voltamos felizes pela viagem completada.

 

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